quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O magarefe



Três crianças jogam ao berlinde na rua poeirenta. Riem alto enquanto dão saltinhos agachados. Ouvem passos pesados e viram-se, ainda com um resto de gargalhada na ponta da língua. Ao verem o homem calam-se, e divertidas fogem para trás de um enorme carvalho à beira da estrada.
Esperam de respiração suspensa e entre risinhos nervosos que ele passe.
O homem já está habituado a esta reacção. Não o incomoda, na medida em que muita pouca coisa o incomodava e ainda menos coisas lhe mereciam uma segunda reflexão.
Era mais alto e entroncado que qualquer outro homem da aldeia. Nunca ninguém lhe tinha ouvido a voz... talvez apenas um grunhido numa ou outra rara ocasião.
Volta a casa depois de mais um dia de trabalho no matadouro. Tem as calças salpicadas com o sangue dos borregos que tinha desmanchado naquela tarde... nas mãos traz um saco de serapilheira com aparas de borrego que o patrão lhe dispensou. O saco está húmido e pinga, deixando pequenos pontinhos vermelho vivo decorando as pedras e fazendo-as parecer joaninhas gigantes secas ao sol. Talvez a mulher pudesse fazer um estufado para o jantar. As botas de cabedal mal curtido arranham o chão áspero e o peso de um dia de trabalho verga-lhe as costas.
Passa por três raparigas que regam uma sementeira... elas calam-se à sua passagem, num misto de embaraço e risos contidos. "Olha, é o magarefe!" - diz a mais nova, sufocando uma gargalhada com a mão. Acotovelam-se umas às outras na tontice própria da juventude.
- Magarefe! Doem-me tanto as costas... podes ajudar-nos a trazer baldes de água? - Grita-lhe uma delas, divertida.
Ele pára e vai ter com elas. Nunca dizia "não" a um pedido de ajuda... e naquela aldeia os pedidos de ajuda que lhe faziam era uma constante. Pega no pesado balde feito de ripas de madeira inchada e até ao pôr-do-sol faz incontáveis viagens entre a horta e o poço.
Quando pára por falta de luz, repara que as meninas há muito que tinham ido embora. Não pensa sequer nisso.
Antes de chegar a casa, ainda ajuda uma vizinha a guardar as galinhas no galinheiro. Toda a aldeia vivia dos favores daquele homem. Chegavam a acorda-lo a meio da noite para ir procurar cavalos fugidos e a maioria das vezes nem se lembravam de lhe agradecer a ajuda. No entanto ele era um homem genuinamente bom e ingénuo. Normalmente apelidavam-no de otário, pois é certo que a natureza humana tem destas crueldades injustificadas.
Ele continua, exausto. O saco de serapilheira já não pinga. Como qualquer homem que aspira pelo final do dia para poder descansar, ver os filhos, ou fumar um mísero cigarro enrolado... também ele percorria todos os minutos do dia com um único propósito, voltar para a mulher. Ela não o sabia, mas não abandonava o pensamento do marido por um segundo sequer.
A vila era tão no fim do mundo, que a expressão “fim do mundo” ganhava uma nova força quando se falava daquele lugar. Chegava a suceder o fenómeno de chover em toda a província, menos ali. No entanto ninguém estranhava o facto e compreendiam que Deus se tenha esquecido daquele lugar.
Entra em casa, e o cheiro a sopa de feijão leva-o à cozinha. A mulher cirandava numa azáfama de um lado para o outro cantarolando. Uma das pontas da bainha da saia estava presa na cintura, deixando ver as coxas morenas e cheias. O cabelo mal apanhado em desalinho, as faces rosadas e a respiração ofegante.
Olha-a com devoção... ela vira-se e ele baixa o olhar, tossicando... disfarçando a fraqueza.
“Chegaste!”, cantarola ela alegremente, “Tens fome?”, e antes que ele respondesse, encheu um prato de sopa e colocou-o na mesa.
Os longos dez anos de vida em comum com aquele homem que o pai lhe tinha arranjado, ensinaram-lhe que não valia a pena fazer perguntas. Ele raramente respondia e quase nunca proferia palavra. Estar casada com ele era o mesmo que estar casada com um muro de tijolos e ela já há muito que aprendera que a única forma de combater a solidão era ter amantes esporádicos que a faziam guinchar de prazer no meio das cearas de trigo.
Olha para ele de soslaio... é tão grande que parece entalado naquela cozinha minúscula. A colher desaparece algures naquelas mãos imensas e ela tem um arrepio nervoso.
Toda a aldeia sabia dos acessos de luxúria daquela mulher. A população assistia divertida aquela novela, rindo-se perante a ingenuidade patética daquele marido bruto e cego de amor. Chamavam-lhe “o magarefe chifrudo”, e verdade seja dita, tirando as tropelias deste caricato casal e as missas ao Domingo de manhã, pouco mais havia para fazer naquele lugar que nem o diabo se dignava a visitar. Talvez por não falar, quase não o tomavam por humano, mas sim como um monte de membros que se movimentavam como por magia, e que serviam apenas para os ajudar a levantar cercas ou a fazer telhados.
Ultimamente a mulher do magarefe andava a rebolar-se pelos campos com um dos trabalhadores dos caminhos-de-ferro. Enquanto houvessem carris para assentar, ela estaria servida, e por isso, descansada.
Acaso do destino (e como a vida é feita não do esperado, mas sim dos desvios do dia a dia), numa tarde quente de sexta-feira, ele é dispensado do matadouro antes da hora habitual. A sua perícia em desmanchar porcos tinha-o levado a acabar o serviço uma hora antes do tempo... o que acabaria por trazer à sua vida um novo rumo e bastantes dissabores para o resto da aldeia, como mais tarde se veio a verificar.
Vinha extremamente bem-disposto, o que no caso dele, não se traduzia em qualquer aspecto exterior visível a olho nu. O calor abrasador fazia-o transpirar em bica. Pensou que talvez fosse boa ideia dar um mergulho no rio antes de ir para casa... chegaria fresco e rejuvenescido e talvez até a levasse a mulher até à taberna da praça depois do jantar... e depois quem sabe, talvez ela o deixasse fundir na sua pele quente e morena.
Embalado pela boa disposição, começa a assobiar, o que sucedeu pela primeira e ultima vez na sua vida.
Soltava uma melodia improvisada e alegre por entre os lábios, enquanto as suas mãos fortes mergulhavam na água fresca que chilreava como pardais. Preparava-se para despir a camisa quando começou a ouvir um reboliço contido por entre o canavial. Risos, gemidos e palavras sussurradas e urgentes. Avança silencioso, atraído por aqueles sons que lhe eram estranhamente familiares. Os ossos arregalam-se quando se aproxima o suficiente para reconhecer as costas nuas da mulher, que cavalgava em cima de um rapaz com metade da sua idade. Arfava como uma gata com cio e parecia que toda a fornicação deste mundo seria insuficiente para apagar aquele fogo.
Ele afasta-se, atarantado e vagueia pelos campos sem tino... sem consciência. O choque da descoberta não o deixa reagir, e quando dá por si, está na praça da vila, mesmo em frente à taberna. Ouve muitas vozes de entoações diferentes e muitos risos. Resolve entrar e pedir um whisky para beber de um trago só. Talvez lhe atenuasse um pouco o choque.
As frases voam para rua, abafadas. "Não teve sorte com a mulher, de facto! Puta mais puta não há! As putas ao menos ainda cobram pelos serviços, mas esta é que pagaria pelos serviços de um macho se assim tivesse de ser!" - risos e mais risos - "Coitado do chifrudo do magarefe!" - uma gargalhada geral levanta-se ensurdecedora.
Ele fica lívido ao aperceber-se de que todos sabiam a vida que a mulher levava.
Alguém se vira para trás, ainda a meio de uma gargalhada e vê aquele gigante ali parado na ombreira da porta, lívido e inexpressivo, se é que uma combinação dessas fosse sequer possível.
Aos poucos calam-se e chegam umas cadeiras às outras, como se isso de alguma forma os protegesse. As mãos pendiam ao lado das ancas. Por algum motivo todos olham para as suas mãos. São tão grandes e fortes que podiam separar a cabeça do tronco de qualquer homem que ali se encontrava... corriam aliás rumores de que muita vezes o magarefe matava vacas não com um punhal, mas com uma torcidela de pescoço.
Ele não diz nada, apenas os olha fixamente. Naquele olhar lêem tristeza, desapontamento e sobretudo a dor da traição... não só da mulher, mas de toda a vila.
Ele volta para trás e corre para a igreja. Agora já não chora lágrimas de tristeza, mas sim de raiva.
Corre tudo à procura do padre. Encontra-o na sacristia e implora-lhe que o confesse.
Pela primeira vez fala... fala muito. Pronuncia palavras que nunca tinha usado na vida.
- "Tem de perdoar... sabe, a sua mulher tem uma natureza muito errante. Ninguém lhe contou porque tinham medo que sofresse". - O padre fala calmamente, contendo o riso miudinho de uma criança a fazer uma travessura.
O magarefe, atónito, lança-lhe a pergunta com o olhar.
- "Sim... eu também sabia." - Diz o padre agora pouco à vontade. - "Perdoe-lhes... perdoe todos. Jesus assim o faria."
- "Perdoar?" - Diz o magarefe com uma voz inexpressiva.
- "Sim... pague a todos uma rodada na taberna, ou convide-os para uma matança de porco. Perdoe meu filho."
O gigante traído balbucia um "sim" e sai da Igreja aos ziguezagues.
No dia seguinte não se fala de outra coisa da vila, e ninguém escondia um certo receio do magarefe, principalmente depois da mulher do padeiro ter dito que tinha sonhado que ele lhe tinha entrado em casa e a estrangulado durante o sono, cego pela vingança.
Na taberna todos falam em surdina, comentando o sucedido quando ouvem uma voz estridente vinda da ombreira da porta.
- "Boas!" - diz o magarefe com um sorriso estampado nos lábios.
Ainda estavam todos em estado de choque com o "Boas", visto que nunca ninguém lhe tinha ouvido a voz, quando ele remata - "Amanhã é domingo. Estão todos convidados para um churrasco em minha casa!".
Olham uns para os outros, perplexos, sem saber o que achar do convite, sem saber o que achar daquela mudança tão radical de comportamento, sem saber o que achar de nada.
Na noite de Sábado, a vila inteira sonhou que o magarefe lhes entrava pela casa a dentro e os estrangulava durante o sono.


No Domingo, depois da missa, seguiram em fila, ansiosos e ensopados em nervoso miudinho, para casa do cornudo. Alguns iam em coches, outros a cavalo e os mais humildes caminhavam a pé.
O magarefe tinha improvisado várias mesas vestidas de toalhas brancas no jardim.
Cumprimentava todos, sorridente, falando pelos cotovelos. Grelhava a carne ele mesmo, e depois distribuía-a pelas mesas. Não deixava um copo ficar sem vinho, ou um prato sem pão. A carne estava tenra e suculenta, e em passado um bocado, já todos riam, aquecidos pelo deus Baco e maravilhados com o sabor da carne.
- "A sua esposa?" - pergunta a mulher do sapateiro. - "Ah, anda por aí" - disse ele abrindo os braços em jeito de vénia, abrangendo todo o jardim - "Ela já vem... comam, comam" - dizia rindo.
A filha do calceteiro, uma menina de cinco anos, na inquietude própria da idade, começa numa correria desenfreada pelo jardim, pelo quintal... entra e sai da casa, dos currais, do celeiro, até que entra na casa de desmanche dos porcos e carneiros. O local é gelado e escuro e ela franze as sobrancelhas a fim de adaptar os olhos à escuridão. E é então, que o seu coraçãozinho de cinco anos quase pára com o choque. Em dois ganchos da parede, estão a cabeça da mulher do magarefe e de um jovem rapaz. A mesa do desmanche, em pedra, tem esquecidas algumas tiras de carne, atiradas ao acaso e que pingavam sangue para o chão.
Ela corre dali para fora, espavorida, aos guinchos e soluços. "Cabeças! Estão ali cabeças! Mamã!". A mãe volta-se para ela com um naco de carne suculento pendurado num dos cantos da boca. "O que foi meu amor?". O magarefe tem um sorriso gelado desenhado nos lábios. Toda a gente corre a verificar a veracidade da história.
Entram aos encontrões naquele pequeno matadouro e dão de caras com o horror. Começam a vomitar pelos cantos, enojados, agarrados ao estômago. Percebem então, quase todos em simultâneo, que o magarefe tinha morto a mulher e o amante. A seguir esventrou-os, sangrou-os, cortou-os em postas e ofereceu-os em forma de banquete à vila inteira. A vingança é um prato que se serve frio, mas ele serviu-o grelhado e acompanhado com puré de batata e salada de tomate.
O horror fez toda a gente fugir em debandada, como um bando de pássaros assustados.
O medo apoderou-se da aldeia, e ninguém chamou as autoridades, pois demoravam mais um mês a vir da capital, e quando lá chegassem, já o magarefe os teria transformado a todos em febras.
A partir daquele dia já ninguém pedia favores ao homem... mas sim o inverso. E foi assim, que em menos de um mês, pintaram a casa ao magarefe, trocaram-lhes as janelas, refizeram todo o jardim, e as senhoras revezavam-se para lhe levar o jantar todas as noites. Nunca mais se comentou o sucedido... nem quando se mudou para a vila o novo farmacêutico viúvo com a sua filha solteirona, impetuosa e refilona.
Quando o farmacêutico conheceu o magarefe, simpatizou imediatamente com ele, pois sabia-o também viúvo, e é muito triste um homem viver sem uma mulher. Após breves conversas, ambos acordaram que se casasse com a moça, que já tinha vinte e oito anos e por isso já algo acabada e em dificuldades em encontrar marido.
O casamento durou dois anos sem percalços, até ao dia em que a mulher se apaixonou perdidamente pelo cabreiro. A vila assistia ao romance com o coração nas mãos... sem terem coragem para avisar a rapariga e muito menos o magarefe.
Infelizmente para todos, depois do desaire que foi o seu primeiro casamento, o homem ficou com os sentidos muito mais apurados... esperteza de raposa, olfacto de javali e olhos de falcão.
Numa noite de Sábado, estava a taberna cheia, quando o magarefe apareceu à soleira da porta com um sorriso estampado nos lábios.
- "Boas! Amanhã é domingo. Estão todos convidados para um churrasco em minha casa!".


oil painting 1 Vincent Van Gogh
oil painting 2 Peter Severin Kroyer


13 comentários:

meldevespas disse...

Delicioso!~
Gosto particularmente da forma visceral como descreves os sentimentos, o sexo primário, a crueza dos gestos. Quase se pode sentir o odor a carne e sangue.
Uma escrita escorreita, provocadora, irónica, e mais importante, muito Ginger. Acho que já reconheço um texo teu, ainda que não o assines...
Beijo enorme

Brown Eyes disse...

Ginger está magnífico. Nesta história não consigo destacar-te uma frase que me tenha fascinado mais. O conto está muito igual, não há quebras na qualidade nem no interesse que causa ao leitor. Como diz a mel esta história é da Ginger, uma Ginger que cresce de conto para conto. Beijinhos.

Bailarina disse...

Adorei!! Este conto, tem muito sumo... Daqui podemos tirar,que não vale a pena confiar em ninguém porque toda a gente nos trai... Que realmente a vingança serve-se num prato, bastante frio... E principalmente que o Humano erra e que po Amor era muito mais depressa!! Gostei...
Bjinho*

Demóstenes disse...

Escrita escorreita a agarrar o leitor até final apesar da extensão. Lembrou-me imediatamente Süskind.

Gostei muito da visceralidade, como alguém já aqui disse, da narrativa.

Voltarei mais vezes.

Demóstenes disse...

Ah... só mais uma coisita: ficava esteticamente melhor justificar os textos.

Gingerbread Girl disse...

Mel e Brown, muito obrigada. Vocês são sempre uns doces. :')

Bailarina, eu gostava de ter um temperamento que permitisse servir as vinganças assim tão frias. :p
Obrigada.

Demóstenes, até te dava um abraço por essa menção a Suskind...
I wish... I wish...
Quanto à justificação dos textos, I wish também. -.- Já tentei, mas não consigo... deve ter algo a ver com o modelo que escolhi para o blog. :s

Thank you all. \o/

Ginger Cookie disse...

Nada de novo. Grande história como já é usual da miss Ginger.. mas

"A vingança é um prato que se serve frio, mas ele serviu-o grelhado e acompanhado com puré de batata e salada de tomate."

Brilliant. Fucking brilliant.

Apesar de .. mais uma vez .. achar previsivel.. but nonetheless.. fucking great!

Gingerbread Girl disse...

Olha lá oh Biscoito... eu sinceramente não sei qual é o problema dos finais serem previsíveis. :s
Eu dei indicações ao longo do texto sobre a forma como se ia desenrolar a história.
São histórias com um princípio, um meio e um fim. Não tenho como objectivo chocar ou provocar a surpresa de ninguém com o desfecho da mesma... apenas pretendo acabar o conto de uma forma minimamente inteligente.
Só estou a dizer isto porque tu dizes SEMPRE que "Ah e tal o fim é previsível... ah e tal, ia a meio e já sabia como ia acabar".
Os textos valem pelo que valem, e é tão importante o fim como o inicio.

Quanto ao resto, obrigadinha Biscoito. Faz-se o que se pode. Thanks*

Laudinha disse...

Fantástico.
Adorei a forma como contaste a história. Não acho de todo que seja previsivel. Para mim, começo a pensar no que teria acontecido quando estão todos na mesa a comer mas como tu, não vejo nenhum mal em que se perceba o rumo da história. De alguma forma até comprova que a história tem pés e cabeça.
Acho que por vezes a necessidade que um autor tem de querer surpreender, sem o saber fazer, torna as história de tão forma confusa se perde no meio!

Arisca disse...

Cheguei aqui pela mão da Fábrica de Letras. Adorei!!

johnny disse...

Dos melhores que li no blogue.

Patife disse...

Com um conto por dia o Patife até sorria. (Sim, o Patife leu. O Patife lê. E gostou muito deste).

Petra disse...

Adorei!
E sim muitas vilas precisavam assim de um Homem!
Fantástico