segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A menina que tinha medo de morrer


Leva a ultima garfada de bolo de mel à boca com as mãos trementes pela antecipação da angustia que a espera. A sobremesa era a ante câmara dos horrores que marcava a sua iminente ida para a cama.
Depois do jantar, o pai retirava-se para o salão onde fumava charutos e bebia brandy à lareira. A mãe sentava-se ao lado dele bordando paninhos e mais paninhos de linho, destinados ao esquecimento no fundo de baús que se iam empilhando no sótão.
A governanta escoltava-a ao quarto. Caminhava à sua frente rasgando as trevas com uma pequena lamparina de azeite.
Amortalhada nos lençóis rendados, ficava inerte, noites a fio, olhando as sombras das árvores que a lua projectava na janela.
Há três anos que não dormia. Lembrava-se da noite em que tinha deixado de dormir. Costumava perder-se em devaneios antes de adormecer e naquela noite em particular, lembrou-se do enterro da bisavó, e como lhe obrigaram a depositar um derradeiro beijo na testa da defunta. Lembrava-se ainda da textura enrugada da sua testa, da pele gélida... do cheiro a corpo morto.
Por um momento, aquela recordação permaneceu-lhe na boca, ganhando um travo amargo... e de um momento para outro, algo dentro de si enfrentou a certeza da efemeridade da vida, a certeza de que iria um dia iria ser engolida pelo solo húmido e frio e servir de alimento aos bichos que habitavam no solo. E foi assim, que com apenas treze anos, na escuridão do quarto, tomou consciência da sua própria mortalidade, o nada, o vazio, o fim. O estômago contorceu-se, as suas entranhas reviraram-se enlaçaram-se em nós impossíveis de desfazer... fisicamente, sentia que todos os seus órgãos se embrulhavam numa espiral de agonia. Começou com suores frios que lhe empapavam a camisa de dormir de algodão e toda ela tremia de medo. Aquele pensamento forrado de agulhas ácidas penetrou em todo o seu corpo, em cada célula, em cada centímetro de pele. Envolveu-lhe cada fio de cabelo, entrou-lhe pela boca forrando a língua de uma camada pastosa e acre.
Na manhã seguinte encontraram-na a arder em febre, delirando, balbuciando palavras sem nexo... e assim passou seis meses.
O médico não conseguiu encontrar razão física para o estado da menina, declarando por fim que ela deveria ter demónios no corpo e deveria ser exorcizada. Na manhã em que é esperada a vinda do padre, ela melhora inesperadamente. Levanta-se da cama, e pergunta se há pão-de-ló. Os pais perplexos, tomam o acontecimento como um milagre, e como agradecimento, doam à paróquia cinco hectares de terras férteis.
Numa análise mais desatenta, ela parecia curada... mas ninguém reparou que não havia vida nos seus olhos e que parte dela está já morta.
Não volta a dormir. Passa as noites a pensar na morte... esses pensamentos, apesar de estarem já sempre presentes durante o dia, ganhavam uma nova vida na escuridão do quarto. Ela pressentia a chegada daquela sensação de mortalidade que lhe revirava as entranhas e que quase lhe parava o coração com o choque. O baque que esses pensamentos lhe provocavam era sempre violento e intenso como no primeiro dia. Às vezes tentava afasta-los, mas eles voltavam com ainda mais força e ela acabou por desistir, entregando-se... completa, nas trevas.
E desta forma, ela vivia o dia, temendo o cair da noite.
As noites de lua cheia eram gentis para ela... a luz tépida do luar que penetrava os cortinados de organza brancos, quase lhe dava a sensação de que era dia, e nessas noites ela chegava a dormitar um pouco, entre pestanejos leves.
Nas tardes de verão, o cheiro a rosas inundava todo jardim, em vagas de cheiro quase palpáveis. Ela adorava dar pequenos passeios, envolta naquele perfume das rosas e por entre a sombra fresca dos ciprestes centenários. Numa dessas tardes, enquanto observava o seu próprio reflexo nas margens do lago, é atingida pelo baque de pensamentos funestos que só tinha à noite. Fica perplexa, ofegando violentamente, de corpo hirto e braços caídos. Os punhos cerrados traduziam a sua raiva.
Como podia isto estar a acontecer durante o dia? Era à noite! Sempre à noite! Como é que aquela sensação horrenda tinha encontrado o caminho por entre a luz do sol e chegado até ela? Ela não ia aguentar... como podia? Dia e noite, até ao dia em que morresse... a certeza da morte iria persegui-la, para onde quer que fosse. Sempre.
Não consegue jantar... tem o estômago em agonia e transpira entre tremores violentos. Os pais mandam-na para o quarto, julgando que ela devia ter apanhado uma gripe, ou uma outra qualquer febre de Verão. Caminha com passos lentos e hesitantes... a maçaneta de porcelana gelada, dá-lhe uma sensação agradável quando a agarra e a gira.
A escuridão do quarto engole-a, implacável.
Deita-se na cama, como que se deitando num caixão... de braços cruzados no peito. O luar entra doce pela janela... mas isso já de nada lhe serve. O medo tinha conseguido abrir caminho por entre a luz.
A claridade morna da manhã encontra-a morta, de rosto contorcido, petrificado pela angustia.
Tinha morrido de medo, a menina que tinha medo de morrer.

pic in deviantART

21 comentários:

johnny disse...

Muito bom. Só tem lá algumas palavras a mais e outras em falta... se releres encontras essas... gralhas.

Ah! e não gosto desta frase:

"e de um momento para outro, algo dentro de si enfrentou a certeza da morte, a certeza da efemeridade da vida, a certeza de que iria um dia morrer. E foi assim, que com apenas treze anos, na escuridão do quarto, tomou consciência da sua própria mortalidade."

E a repetição da ideia continua:

"a certeza de que um dia estaria morta. Ia ser engolida pela terra, ia cessar de existir, ia ser alimento para os bichos que habitavam o solo húmido e frio. Ia encontrar a escuridão eterna... o nada, o vazio, o fim."

Na minha opinião,a ideia é repetida demasiadas vezes. Pode ser com o intuito de vincar a ideia, mas, PARA MIM, NA MINHA MODESTA E SINCERA OPINIÃO, é demasiado repetida.

(antes que me insultem, a autora disse que eu podia fazer estas críticas)

Gingerbread Girl disse...

Thanks jonnhy. =p
Disse sim senhor... não sabia que tinhas sido tu a mandar o mail por causa do Jarvas.
Quem lê de fora consegue encontrar gralhas mais facilmente do que quem escreve. Eu já li e reli o texto tanta vez que quase o sei de cor.
Essas linhas de facto são repetitivas. Escrevi-as mesmo com o intuito de calcar e calcar e moer e moer a ideia.
Talvez não tenha conseguido transmitir a espiral de pânico da melhor forma. =|

As críticas construtivas são sempre bem vindas. ;)


*

meldevespas disse...

Tenho a dizer que a menina Ginger está a ficar um bocadinho permissiva....e não não estou a falar do texto, do frasear, do estilo, não, nada disso. Estou mesmo a falar das "criticas" pá desculpem lá, mas quem escreve, lê e relê, e sabe que quer aquela frase ali, daquela forma, e não de outra, it's a kind of feeling. Isso não são gralhas, são opções de escrita!
Agora em relação ao texto, já te disse que é um Ginger, absolutamente um Ginger, move-se naquele universo que tu crias, naquelas cores que tu pintas, está imaculado como sempre, e o tema...a mim causa-me pele de galinha, revejo-me na menina e tenho medo disso.
Beijo grande
PS: Oh Jonnhy, isto n é nada pessoal, no hard feelings, ok

johnny disse...

Ai, ai, ai, Meldevespas!

Claro que é pessoal, porque só eu é que tinha comentado na altura do teu comentário!

:)

Agora a sério. Eu compreendo o que dizes e até concordo que algumas críticas (nunca a minha) às vezes são despropositadas :)

Mas a diferença está no que eu escrevi.

Eu disse sobre a frase que não gostava e isso é separado do que tinha dito antes, ou seja, que havia gralhas facilmente solucionáveis com nova leitura.

São coisas diferentes que eu separo de estilo e de opções de escrita.

Quando aparece, por exemplo, no texto:

"Na manhã em é esperada a vinda do padre"

ou

"tem o estomago em e transpira entre tremores violentos"

eu acho que há ali alguma gralha, porque parece-me que faltam lá algumas palavras.

Posso estar enganado, mas não me parece.

... para a próxima, comento por mail - disse ele em tom amargurado.

O que vale é que eu não sou rancoroso.

Denise disse...

very nice... ia apontar alguns erros, mas o johny ja o fez...

gostei do texto... :)

Sr. Engenheiro disse...

Está muito jeitoso o conto.

Koshdukai disse...

só gostava de saber como raio é q aqui vim parar hoje -.-' ...bem, agora já é público: Também aqui ando a ler isto :P

Inês disse...

Gostei muito do texto ;)

Tenho 1,63. Não sou lá muito alta.

beijinhos*

Hermione disse...

ginger, nao conhecia este teu blog. é amazing :) escreves muito bem.
beijinho

Brown Eyes disse...

Ginger está uma maravilha, como habitualmente. Soubeste tão bem relatar o medo da morte, que tantos sofrem, a relação que as pessoas fazem dela com a noite, o primeiro contacto com ela, que pode, não sendo acompanhado, ser traumático, que foi caso desta menina. Quanto à repetição de ideias, também utilizo muito e claro penso que é a melhor maneira de vincar ideias. Não há nada a apontar neste texto. Tiveste, penso eu, apenas uma distracção. Eu já li e reli a frase: "Numa análise mais desatenta, ela parecia curada... mas ninguém reparou que não havia vida nos seus olhos e que parte dela está já estava morta". ".....está já estava morta", será uma virgula que falta aqui? Ginger eu talvez lhe tirasse o está mas...a autora é que sabe. Saramago nem pontua por isso... Tens aqui frases que estão um espectáculo, esta é um exemplo entre muitos:
- A governanta escoltava-a ao quarto. Caminhava à sua frente rasgando as trevas com uma pequena lamparina de azeite.
Beijinhos e, sem te pressionar, estou à espera do próximo.

Paulo disse...

Muito bem explicados os receios e os sentimentos desta menina-mulher.
Confesso que não gosto de escrever sobre a morte (acho que não sei descrever tamanho medo), mas aprecio a capacidade dos outros em o fazer.
E este vai-vem de pensamentos aqui relatados é algo muito difícil de expressar em palavras.
Não sei o que dizer mais. Parabéns!

Sweet Chic disse...

Como diria Dalai Lama "O medo é útil quando ele nos deixa alerta."


Um beijinho muito chic

jessica subtil disse...

achei sem querer...
agoro visito todos os dias!!

parabéns
beijos

Susana disse...

"O medo é uma força que não me deixa andar. Tenho medo de exigir. Tenho medo de deixar. O medo é uma sombra que o temor não desvia. O medo é uma chave que apagou a vida. Medo a circular nas veias. . .O medo é a medida da indecisão. Medo de se arrepender. Medo que dá medo do medo que dá." (Lenine)


será ignorância pensarmos que somos nós que o criamos em nós mesmos?

ADEK disse...

Só li dois dos posts-conto... Mas adorei:D Vou tratar de ler mais! Beijinho*

Swadharma disse...

Receio que seja uma tragédia comum no mundo Ocidental.
E por temer a morte, nao vivemos realmente a vida.
Eu não tenho propriamente medo da morte, mas tenho pavor a algumas formas de morrer.
E de tal forma que me condiciono na vida...
E quando penso nisso... tenho medo de chegar ao fim dos meus dias, aperceber-me do fim, e pensar: Terei vivido? Ou apenas sobrevivido?

*

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Que dizer do que escreves, Gingerbread girl? Penso ja ter dito uma vez que ler-te é apenas isso, sendo dificil de te comentar. Nao tinha lido este nao senhor, e la vens tu, como um escritor que nos presenteia de quando em vez com outra obra sua.

Sobre a ideia da repetição aqui aflorada num comentario, eu entendo quem a escreveu, mas senti essa repetição como um "enforcing", como uma ideia a reter por outras palavras, para dar sempre esse enfoque particular da situação.

A musica tambem esta bem aplicada :)

Se tivesse de criticar, nem bem nem mal, mas apenas no sentido de criticar, de "avaliar", de dizer de minha justiça, diria apenas que a tua escrita, em todos os teus textos, é muito neorealista, com palavras cruas e directas, sobretudo cruas, como quem mete a realidade pelos olhos dentro sem cuidar de suavizar a situação. Foi apenas um pormenor. uma constataçao. Nao uma critica. Relatas, escreves, narras, falas... como quem mostra um telejornal supostamente neutro de imagens cruas e reais.

grande beijinho

Clairvoyant disse...

Que coisa dark. Ainda bem que comecei pelo teu outro blog, senão nunca teria dedicado muito tempo à leitura do que produzes.

Mas são duas faces que formam uma moeda muito interessante, e devo gabar a tua capacidade de ires de um extremo ao outro com aparente naturalidade.

Não sei se pelo conteúdo do texto ou pela escrita em si, acabei por ler um bocado na diagonal. Vou dar mais uma atenção mais tarde quando estiver com outro estado de espírito. No entanto, ou sou eu, ou tens muito mais jeitinho para a comédia do que para o drama.

Fazer chorar é fácil, basta saber onde estão os pontos sensiveis dos outros e calcá-los à bruta. Fazer rir é um dom inestimável. É quando conseguimos trazer uma réstea de luz ao olhar magoado de alguém, e fazer com que esqueça os seus problemas por um instante em que mostra o marfim e ri com gosto. Eu prefiro quando me fazes rir.

D* disse...

Adorei, achei este post lindo! Tenho que passar a vir aqui mais vezes :)

Demóstenes disse...

Atenção à ausência de acentos em algumas palavras!!!

Gostei do trocadilho final e do papel de parede.

Patife disse...

O Patife adora ler um conto a meio do dia. Sente-se fresco por dentro. O Patife adora o teu tom de escrita.