
- Esta vila é muito bonita, não é Chopin? – Perguntou enquanto esfregava as mãos uma na outra, tentando aquecer-se.
Chopin olhou para ele e deitou-se no chão, com o estômago colado às costas, de tanta fome.
- Dantes, quando eu trabalhava aos fins-de-semana, e chegava cansado, a minha mulher tinha sempre à minha espera uma ceia de faisão. Já te tinha dito isto Chopin? – Disse, em jeito de afirmação vaga, enquanto olhava em volta com os olhos perdidos. Tosse de forma dolorosa durante um minuto e depois pára, de peito cansado.
O banco de jardim estava gelado e húmido. O velho sentia o frio a atravessar-lhe a pele, a carne e por fim a chegar aos ossos gastos, onde doía como se lhe estivessem a espetar facas. Afaga os joelhos cansados… o tecido das calças, surrado e roto, ameaçava desfazer-se a qualquer momento, desprendendo-se daquele corpo humano, como fuligem que se solta de uma chaminé.
- Vem Chopin, vamos tentar comer qualquer coisa. – Tosse novamente, em agonia… leva um lenço à boca para se limpar, e fica por uns momentos a olhar para o sangue. Suspira e volta a enfiar o lenço sujo num bolso ainda mais sujo. Caminham lado a lado, lentamente, ao ritmo da velhice e da doença que lhe corroía a carne. Passam por uma árvore de Natal da altura de dois homens, coberta de laços vermelhos e bolas de vidro coloridas. Por baixo, repousava um presépio, de estatuetas toscas esculpidas em madeira e de cores sumidas pela idade.
A padaria estava envolta numa nuvem de fumo que cheirava a bolos e a pão quente. Na porta estava pendurada uma coroa de azevinho, carregada de bagas vermelho vivo.
- Bom dia minha menina! Não me arranja nada com que entreter os dentes? A mim e ao Chopin… que ainda está com mais fome que eu. – Os seus olhos de raios cinzentos salpicados de verde, sorriem de forma amena, reflectindo uma bondade latente. A rapariga por detrás do balcão sorri-lhe com franqueza.
- Ontem apanhei uma descompostura do meu pai! Não lhe posso dar comida todos os dias, senhor. Olhe, posso dar-lhe um pãozinho de leite com queijo e uma chávena de café quente, pode ser? – Ouviu a própria voz sair da garganta, carregada de culpa e pena.
- E o para o Chopin? – Perguntou com desalento e rugas tristes.
Chopin, olhava ora para um, ora para outro, impávido.
- Não posso, só lhe posso dar a si. Ao seu cão não pode ser… tenho muita pena. – Disse, enquanto preparava o pão-de-leite e chávena de café a ferver.
O velho dividiu a preciosa iguaria em três partes iguais. Deu duas ao cão e comeu a outra lentamente, enquanto beberricava o café.
- Onde vai passar a Consoada, senhor? – Perguntou a menina com tristeza. – Não pode ficar na rua na noite de Natal. Alguém tem de fazer alguma coisa!
- A cabana abandonada ao pé do rio até que nem é má, se não me cair em cima antes – riu-se o homem - Eu fico bem, não se preocupe. Acha que me arranja dois pãezinhos-de-leite para Consoada, menina?
- Oh, claro que sim! Passe aqui amanhã ao fim da tarde, que eu dou-lhe os pães-de-leite e um frasco de compota. Tenho algumas moedas guardadas. Se eu pagar, o meu pai não pode refilar… - disse algo divertida com a travessura. – Eu até o convidava para passar a consoada lá em casa, mas vamos passar o Natal a casa de uns primos, numa vila aqui perto.
O velhote anui com um gesto lento da cabeça e volta para o frio da rua, sempre com o cão ao lado, que o olhava com gratidão por os dois terços de pão-de-leite que tinha no estômago.
- Não há cão como tu, Chopin! Nunca te esqueças disso. – Disse emocionado, por entre mais um ataque de tosse violenta.
Parou em frente à ourivesaria a apreciar os relógios de cordões de ouro reluzente que se exibiam na vitrina. O ourives saiu à rua, e acendeu um cachimbo.
- Bom dia meu caro! Ainda por cá? Está a gostar disto, hein? – Perguntou o homem de fato engomado e barriga de frade, com um sorriso prazenteiro.
- Oh sim. São todos muito simpáticos por estes lados! – Respondeu o velho com gratidão.
- E diga-me… onde é que vai passar a Consoada? É já amanhã. – Perguntou, engasgando-se numa nuvem de fumo.
- Na cabana ao pé do rio.
- Ah! Isso é que não pode ser! Não pode ficar na rua na noite de Natal! - indignou-se -Alguém tem de fazer alguma coisa! – Gritou o ourives enquanto consultava as horas no seu relógio preso por uma corrente de ouro. Franziu o sobrolho a fim de focar os ponteiros e voltou a guardar o relógio no bolsinho do colete. – Eu teria muito gosto em recebe-lo em minha casa, mas vem uma prima da minha mulher da capital, com o seu rancho de filhos, e íamos acabar por ficar todos muitos apertados. Olha, passe por cá amanhã à tardinha, antes de fecharmos. Digo à minha mulher para lhe trazer umas fatias de peru.
- Muito obrigado senhor! Não como peru há muitos anos. Muitos anos! – O velho irradiava gratidão. – Ouviste Chopin? Peru! Peru, Chopin! Ouviste bem?
Estava a atravessar a rua, quando o dono da garrafeira o chamou. - Hei! Chegue aqui! Como anda? Ainda por cá? – Perguntou o homem muito rapidamente num grito alegre.
- Ainda. Devo de ir embora para a semana. – Disse o velho entre um ataque de tosse.
- E onde é que vai passar o Natal, meu caro?
- Na velha cabana ao pé do rio… consegui juntar um pouco de lenha seca, o suficiente para fazer uma pequena fogueira. A menina da padaria vai dar-me uns pãezinhos-de-leite e compota, e o ourives umas fatias de peru. Há muitos anos que não tenho um Natal tão farto! – disse o velhote quase rindo.
- Oh, não pode ficar naquela barraca na noite de Natal! Alguém tem de fazer alguma coisa! Escute, passe por cá amanhã antes de fechar aqui a loja, que eu dou-lhe uma garrafa de tinto! Que lhe parece? – Disse o homem piscando o olho. – Eu até o convidava para passar o Natal connosco, mas vai lá estar o meu irmão… o médico, sabe, e ele tem a mania que é muito fino. Não se dá com toda a gente, sabe?
- Não faz mal. Mas muito obrigado pelo vinho, é muita bondade da sua parte. Vinho para acompanhar o peru! Muito obrigado senhor… Deus lhe pague.
O velhote afasta-se com lágrimas nos olhos, agradecido pela generosidade daqueles desconhecidos.
- Sabes Chopin, antes, no Natal, a minha mulher fazia sempre um grande banquete. Punha a toalha vermelha na mesa, tirava a louça de porcelana dos armários, os copos de cristal, e fazia uma fogueira de labaredas altas. E depois trocávamos presentes embrulhados em papel de seda colorido. Já te tinha dito isto, Chopin?
O Chopin lambeu-lhe a mão e o velho afagou-lhe a cabeça morna. – Não há cão como tu, Chopin. – disse com a voz embargada por entre mais um violento ataque de tosse. Olha para a mão que levou à boca, velha e ensanguentada e fecha os olhos num instante de reflexão.
Custa-lhe cada vez mais andar… uma nuvem de bafo quente e fraca sai-lhe da boca. A neve caía como farinha peneirada, e cobria tudo como uma mantinha de croché fofo.
A florista, de avental de couro, está atarefada a mudar vasos e jarras de flores de sítio em frente à loja.
- Bom dia! Ainda por cá? Como vai o senhor? – Pergunta ela alegremente ao velho indigente.
- Vai-se andando, muito devagarinho. – Diz ele bem disposto. Encosta-se a um poste e começa a tossir violentamente.
- O senhor não me parece nada bem. Precisa de uma cama macia para dormir e um lume forte para o aquecer! – Recomendou preocupada a florista.
- Pois… é como diz a senhora. Mas terei de me contentar com a cabana abandonada ao pé do rio. – Diz um velho com um sorriso terno, resignado e sem mágoa.
- É lá que vai passar o Natal? – Pergunta, indignada. – Isso é que não pode ser! Não, não! Alguém tem de fazer alguma coisa! Ouça, passe por aqui amanhã, à horinha de fechar, que eu dou-lhe uma cestinha de frutas e um pacotinho de nozes.
- Oh, muito obrigado! Como lhe agradeço! - Diz o velho emocionado.
- Não agradeça… afinal de contas, é Natal. Não pode é dormir naquele casebre. Alguém tem de fazer alguma coisa. Eu até o chamava lá para passar o Natal connosco, mas o meu marido é muito avesso a ter desconhecidos em casa. Se não fosse isso…
- Não tem importância. Eu fico bem… tenho lenha seca, pães-de-leite, compota, peru, vinho e frutas! Vai ser um regalo, este Natal. – Diz o velho rindo, visivelmente contente e agradecido.
O velho volta para o casebre. Não tem porta nem janelas. Vêem-se as vigas de madeira, descarnadas dos tijolos de barro envelhecido. Olha para o monte de lenha a um canto e sente-se tentado a acende-la. – Não pode ser Chopin… é para a noite de Natal.
O dia amanheceu cinzento e gelado. A neve, furiosa, voava vinda de todas direcções. O velho tremia a um canto, a invadido de frio e de febre. Não se consegue mexer com as dores que lhe massacram o corpo e com a tosse que lhe sacudia a alma em convulsões violentas. Balbucia palavras sem nexo e chama por Chopin. O cão, que ainda não tinha saído da sua beira, lambe-lhe as faces com ternura e deita-se em cima das pernas velhas e cansadas para o aquecer.
O tempo lá fora, passa lento e o velho recompõe-se um pouco. – A fome aperta, não é Chopin? O que vale, é que hoje vamos ter um banquete digno de um rei! Essa é que é essa!
Olha pela janela e calcula que a tarde já deva ir a meio. – Temos de nos apressar Chopin. – Diz o velho. O cão agita a cauda, contente por ver o dono de pé e pousa-lhe a pata numa perna. – Não há cão como tu Chopin, nunca te esqueças disso.
Caminham, velho e cão lado a lado. Os ataques de tosse são cada vez mais violentos e longos. Começa a cair uma chuva miudinha e fria. – Depressa Chopin! Vamos acabar ensopados.
Chega à vila silenciosa e escura. A árvore de Natal, de pé no meio da praça, olha para eles, triste. A chuva miudinha que entretanto se tinha tornado de uma tormenta de ventos fortes e gotas pesadas, tinha arrancado mais de metade das bolas e laços que enfeitavam a árvore, e estavam agora espalhados pelo chão, rodopiando ao sabor da tempestade.
O velho acelera o passo e dirige-se à padaria. Fecha as mãos em concha e espreita pelas janelas escuras – Oh Chopin! Chegamos tarde Chopin! Oxalá a ourivesaria ainda esteja aberta…
Caminham apressados. A ourivesaria apresentava-se também de janelas escuras e sem vida. O velhote, num acto desesperado, bate à porta com força… mas apenas lhe responde um silêncio frio. – Oh Chopin, nem pães-de-leite nem peru. A culpa é minha, que não consegui vir mais cedo.
Chegaram à garrafeira. A porta fechada de madeira negra e ferrolhos pesados, condizia com o desalento das janelas de cortinas corridas. O velho engole em seco e deixa cair uma lágrima, apenas uma. A fome triturava-lhe o estômago, impiedosa e cruel. A chuva já lhe tinha trespassado o casacão pesado e a velha camisola esburacada de lã. Uma das solas desprende-se das botas e ele fica com um pé descalço no chão.
Numa última chama de esperança, corre para a florista. Queda-se à entrada fechada. As mãos caem-lhe ao lado do corpo num desalento gritante. As lágrimas, agora soltas e abundantes, preenchem-lhe as rugas desenhadas pela idade e pelas amarguras da vida…
- Vamos embora Chopin. Desculpa, oh, porque não vim mais cedo? Desculpa amigo, que noite bonita e farta poderíamos ter tido…
Caminham de volta ao casebre, ensopados e a tremer, com uma fome que consumia cada célula dos seus corpos. O velho tossia sem parar, com uma violência que lhe despedaçava os pulmões. Quando se aproxima do casebre, verifica horrorizado e em pânico, que metade tinha ruído com a força da tormenta. Num dos cantos, o telhado permanecia intacto, mas no lado onde ele tinha guardado a lenha, jazia agora um monte de escombros ensopados. O velho, de lábios trementes e gelados, deixa-se cair de joelhos e chora. Chora a vida que teve, chora a vida que poderia ter tido, chora os seus sonhos e a suas esperanças. Chora tudo o que não chorou durante anos e anos de vida solitária e errante. Agacha-se a um canto e deixa-se ficar a tremer e a chorar. – Desculpa Chopin… merecias melhor que isto na Consoada. – O cão gane baixinho e deita-se em cima do velho, que o afaga com os dedos magros e débeis. E é então, que sob um trovão ensurdecedor, a terra tremeu e o resto da cabana ruiu.
No dia de Natal, um sol frio mas radioso, penetra pelas janelas e acorda a vila adormecida. Alegres e agasalhados, de barrigas ainda cheias da noite anterior, dirigem-se à Igreja para assistir à missa de Natal. Conversam alegres. Falam na tempestade da noite passada, na alegria que era ter a família junta, nos presentes trocados…
A florista pergunta se alguém sabia do velho indigente. Mas ninguém sabia, ninguém o tinha visto. Ele não tinha aparecido para ir buscar os pães-de-leite, o peru, o vinho e a fruta. Ouvem-se vozes desconsertadas, embaraçadas, culpadas.
- Meu Deus, pobre desgraçado! Não me digam que passou a Consoada sozinho naquele casebre a cair aos bocados! – Gritou incrédulo e chocado, o dono da garrafeira. – Não chegou a vir buscar a garrafa de vinho… - murmurou para si próprio.
Um pequeno grupo forma-se. Apressam-se à cabana junto ao rio. A menina da padaria ia em ultimo, a chorar baixinho, - ele não veio buscar os pães-de-leite e a compota… devia ter ido à procura dele… oh – Repetia para si própria. Quando lá chegam, só encontram um monte de tijolos velhos e vigas de madeira podres. Avista-se por baixo dos escombros, uma mão branca e morta. Velha, triste, coberta pelo desamparo da morte.
As pessoas, de tez carregada de angustiada, começam a remover o entulho apressadamente. – Rápido! Rápido! – grita o ourives.
Conseguem chegar ao velho, que nunca ninguém chegou a saber o nome ou a conhecer a história. O cão, jazia em cima da sua barriga, como se tivesse feito um derradeiro esforço para aquecer o dono.
- Pobre desgraçado! Ninguém merecer partir deste mundo assim… - diz o ourives tristemente, carregado de culpa, rodando o anel de rubi no indicador.
- Merece um enterro condigno. – Levantam-se algumas vozes.
- Alguém tem de fazer alguma coisa. – Dizem.
- Sim… alguém tem de fazer alguma coisa.
oil painting por Rembrandt
Para Fábrica de Letras, "Natal"
Chopin olhou para ele e deitou-se no chão, com o estômago colado às costas, de tanta fome.
- Dantes, quando eu trabalhava aos fins-de-semana, e chegava cansado, a minha mulher tinha sempre à minha espera uma ceia de faisão. Já te tinha dito isto Chopin? – Disse, em jeito de afirmação vaga, enquanto olhava em volta com os olhos perdidos. Tosse de forma dolorosa durante um minuto e depois pára, de peito cansado.
O banco de jardim estava gelado e húmido. O velho sentia o frio a atravessar-lhe a pele, a carne e por fim a chegar aos ossos gastos, onde doía como se lhe estivessem a espetar facas. Afaga os joelhos cansados… o tecido das calças, surrado e roto, ameaçava desfazer-se a qualquer momento, desprendendo-se daquele corpo humano, como fuligem que se solta de uma chaminé.
- Vem Chopin, vamos tentar comer qualquer coisa. – Tosse novamente, em agonia… leva um lenço à boca para se limpar, e fica por uns momentos a olhar para o sangue. Suspira e volta a enfiar o lenço sujo num bolso ainda mais sujo. Caminham lado a lado, lentamente, ao ritmo da velhice e da doença que lhe corroía a carne. Passam por uma árvore de Natal da altura de dois homens, coberta de laços vermelhos e bolas de vidro coloridas. Por baixo, repousava um presépio, de estatuetas toscas esculpidas em madeira e de cores sumidas pela idade.
A padaria estava envolta numa nuvem de fumo que cheirava a bolos e a pão quente. Na porta estava pendurada uma coroa de azevinho, carregada de bagas vermelho vivo.
- Bom dia minha menina! Não me arranja nada com que entreter os dentes? A mim e ao Chopin… que ainda está com mais fome que eu. – Os seus olhos de raios cinzentos salpicados de verde, sorriem de forma amena, reflectindo uma bondade latente. A rapariga por detrás do balcão sorri-lhe com franqueza.
- Ontem apanhei uma descompostura do meu pai! Não lhe posso dar comida todos os dias, senhor. Olhe, posso dar-lhe um pãozinho de leite com queijo e uma chávena de café quente, pode ser? – Ouviu a própria voz sair da garganta, carregada de culpa e pena.
- E o para o Chopin? – Perguntou com desalento e rugas tristes.
Chopin, olhava ora para um, ora para outro, impávido.
- Não posso, só lhe posso dar a si. Ao seu cão não pode ser… tenho muita pena. – Disse, enquanto preparava o pão-de-leite e chávena de café a ferver.
O velho dividiu a preciosa iguaria em três partes iguais. Deu duas ao cão e comeu a outra lentamente, enquanto beberricava o café.
- Onde vai passar a Consoada, senhor? – Perguntou a menina com tristeza. – Não pode ficar na rua na noite de Natal. Alguém tem de fazer alguma coisa!
- A cabana abandonada ao pé do rio até que nem é má, se não me cair em cima antes – riu-se o homem - Eu fico bem, não se preocupe. Acha que me arranja dois pãezinhos-de-leite para Consoada, menina?
- Oh, claro que sim! Passe aqui amanhã ao fim da tarde, que eu dou-lhe os pães-de-leite e um frasco de compota. Tenho algumas moedas guardadas. Se eu pagar, o meu pai não pode refilar… - disse algo divertida com a travessura. – Eu até o convidava para passar a consoada lá em casa, mas vamos passar o Natal a casa de uns primos, numa vila aqui perto.
O velhote anui com um gesto lento da cabeça e volta para o frio da rua, sempre com o cão ao lado, que o olhava com gratidão por os dois terços de pão-de-leite que tinha no estômago.
- Não há cão como tu, Chopin! Nunca te esqueças disso. – Disse emocionado, por entre mais um ataque de tosse violenta.
Parou em frente à ourivesaria a apreciar os relógios de cordões de ouro reluzente que se exibiam na vitrina. O ourives saiu à rua, e acendeu um cachimbo.
- Bom dia meu caro! Ainda por cá? Está a gostar disto, hein? – Perguntou o homem de fato engomado e barriga de frade, com um sorriso prazenteiro.
- Oh sim. São todos muito simpáticos por estes lados! – Respondeu o velho com gratidão.
- E diga-me… onde é que vai passar a Consoada? É já amanhã. – Perguntou, engasgando-se numa nuvem de fumo.
- Na cabana ao pé do rio.
- Ah! Isso é que não pode ser! Não pode ficar na rua na noite de Natal! - indignou-se -Alguém tem de fazer alguma coisa! – Gritou o ourives enquanto consultava as horas no seu relógio preso por uma corrente de ouro. Franziu o sobrolho a fim de focar os ponteiros e voltou a guardar o relógio no bolsinho do colete. – Eu teria muito gosto em recebe-lo em minha casa, mas vem uma prima da minha mulher da capital, com o seu rancho de filhos, e íamos acabar por ficar todos muitos apertados. Olha, passe por cá amanhã à tardinha, antes de fecharmos. Digo à minha mulher para lhe trazer umas fatias de peru.
- Muito obrigado senhor! Não como peru há muitos anos. Muitos anos! – O velho irradiava gratidão. – Ouviste Chopin? Peru! Peru, Chopin! Ouviste bem?
Estava a atravessar a rua, quando o dono da garrafeira o chamou. - Hei! Chegue aqui! Como anda? Ainda por cá? – Perguntou o homem muito rapidamente num grito alegre.
- Ainda. Devo de ir embora para a semana. – Disse o velho entre um ataque de tosse.
- E onde é que vai passar o Natal, meu caro?
- Na velha cabana ao pé do rio… consegui juntar um pouco de lenha seca, o suficiente para fazer uma pequena fogueira. A menina da padaria vai dar-me uns pãezinhos-de-leite e compota, e o ourives umas fatias de peru. Há muitos anos que não tenho um Natal tão farto! – disse o velhote quase rindo.
- Oh, não pode ficar naquela barraca na noite de Natal! Alguém tem de fazer alguma coisa! Escute, passe por cá amanhã antes de fechar aqui a loja, que eu dou-lhe uma garrafa de tinto! Que lhe parece? – Disse o homem piscando o olho. – Eu até o convidava para passar o Natal connosco, mas vai lá estar o meu irmão… o médico, sabe, e ele tem a mania que é muito fino. Não se dá com toda a gente, sabe?
- Não faz mal. Mas muito obrigado pelo vinho, é muita bondade da sua parte. Vinho para acompanhar o peru! Muito obrigado senhor… Deus lhe pague.
O velhote afasta-se com lágrimas nos olhos, agradecido pela generosidade daqueles desconhecidos.
- Sabes Chopin, antes, no Natal, a minha mulher fazia sempre um grande banquete. Punha a toalha vermelha na mesa, tirava a louça de porcelana dos armários, os copos de cristal, e fazia uma fogueira de labaredas altas. E depois trocávamos presentes embrulhados em papel de seda colorido. Já te tinha dito isto, Chopin?
O Chopin lambeu-lhe a mão e o velho afagou-lhe a cabeça morna. – Não há cão como tu, Chopin. – disse com a voz embargada por entre mais um violento ataque de tosse. Olha para a mão que levou à boca, velha e ensanguentada e fecha os olhos num instante de reflexão.
Custa-lhe cada vez mais andar… uma nuvem de bafo quente e fraca sai-lhe da boca. A neve caía como farinha peneirada, e cobria tudo como uma mantinha de croché fofo.
A florista, de avental de couro, está atarefada a mudar vasos e jarras de flores de sítio em frente à loja.
- Bom dia! Ainda por cá? Como vai o senhor? – Pergunta ela alegremente ao velho indigente.
- Vai-se andando, muito devagarinho. – Diz ele bem disposto. Encosta-se a um poste e começa a tossir violentamente.
- O senhor não me parece nada bem. Precisa de uma cama macia para dormir e um lume forte para o aquecer! – Recomendou preocupada a florista.
- Pois… é como diz a senhora. Mas terei de me contentar com a cabana abandonada ao pé do rio. – Diz um velho com um sorriso terno, resignado e sem mágoa.
- É lá que vai passar o Natal? – Pergunta, indignada. – Isso é que não pode ser! Não, não! Alguém tem de fazer alguma coisa! Ouça, passe por aqui amanhã, à horinha de fechar, que eu dou-lhe uma cestinha de frutas e um pacotinho de nozes.
- Oh, muito obrigado! Como lhe agradeço! - Diz o velho emocionado.
- Não agradeça… afinal de contas, é Natal. Não pode é dormir naquele casebre. Alguém tem de fazer alguma coisa. Eu até o chamava lá para passar o Natal connosco, mas o meu marido é muito avesso a ter desconhecidos em casa. Se não fosse isso…
- Não tem importância. Eu fico bem… tenho lenha seca, pães-de-leite, compota, peru, vinho e frutas! Vai ser um regalo, este Natal. – Diz o velho rindo, visivelmente contente e agradecido.
O velho volta para o casebre. Não tem porta nem janelas. Vêem-se as vigas de madeira, descarnadas dos tijolos de barro envelhecido. Olha para o monte de lenha a um canto e sente-se tentado a acende-la. – Não pode ser Chopin… é para a noite de Natal.
O dia amanheceu cinzento e gelado. A neve, furiosa, voava vinda de todas direcções. O velho tremia a um canto, a invadido de frio e de febre. Não se consegue mexer com as dores que lhe massacram o corpo e com a tosse que lhe sacudia a alma em convulsões violentas. Balbucia palavras sem nexo e chama por Chopin. O cão, que ainda não tinha saído da sua beira, lambe-lhe as faces com ternura e deita-se em cima das pernas velhas e cansadas para o aquecer.
O tempo lá fora, passa lento e o velho recompõe-se um pouco. – A fome aperta, não é Chopin? O que vale, é que hoje vamos ter um banquete digno de um rei! Essa é que é essa!
Olha pela janela e calcula que a tarde já deva ir a meio. – Temos de nos apressar Chopin. – Diz o velho. O cão agita a cauda, contente por ver o dono de pé e pousa-lhe a pata numa perna. – Não há cão como tu Chopin, nunca te esqueças disso.
Caminham, velho e cão lado a lado. Os ataques de tosse são cada vez mais violentos e longos. Começa a cair uma chuva miudinha e fria. – Depressa Chopin! Vamos acabar ensopados.
Chega à vila silenciosa e escura. A árvore de Natal, de pé no meio da praça, olha para eles, triste. A chuva miudinha que entretanto se tinha tornado de uma tormenta de ventos fortes e gotas pesadas, tinha arrancado mais de metade das bolas e laços que enfeitavam a árvore, e estavam agora espalhados pelo chão, rodopiando ao sabor da tempestade.
O velho acelera o passo e dirige-se à padaria. Fecha as mãos em concha e espreita pelas janelas escuras – Oh Chopin! Chegamos tarde Chopin! Oxalá a ourivesaria ainda esteja aberta…
Caminham apressados. A ourivesaria apresentava-se também de janelas escuras e sem vida. O velhote, num acto desesperado, bate à porta com força… mas apenas lhe responde um silêncio frio. – Oh Chopin, nem pães-de-leite nem peru. A culpa é minha, que não consegui vir mais cedo.
Chegaram à garrafeira. A porta fechada de madeira negra e ferrolhos pesados, condizia com o desalento das janelas de cortinas corridas. O velho engole em seco e deixa cair uma lágrima, apenas uma. A fome triturava-lhe o estômago, impiedosa e cruel. A chuva já lhe tinha trespassado o casacão pesado e a velha camisola esburacada de lã. Uma das solas desprende-se das botas e ele fica com um pé descalço no chão.
Numa última chama de esperança, corre para a florista. Queda-se à entrada fechada. As mãos caem-lhe ao lado do corpo num desalento gritante. As lágrimas, agora soltas e abundantes, preenchem-lhe as rugas desenhadas pela idade e pelas amarguras da vida…
- Vamos embora Chopin. Desculpa, oh, porque não vim mais cedo? Desculpa amigo, que noite bonita e farta poderíamos ter tido…
Caminham de volta ao casebre, ensopados e a tremer, com uma fome que consumia cada célula dos seus corpos. O velho tossia sem parar, com uma violência que lhe despedaçava os pulmões. Quando se aproxima do casebre, verifica horrorizado e em pânico, que metade tinha ruído com a força da tormenta. Num dos cantos, o telhado permanecia intacto, mas no lado onde ele tinha guardado a lenha, jazia agora um monte de escombros ensopados. O velho, de lábios trementes e gelados, deixa-se cair de joelhos e chora. Chora a vida que teve, chora a vida que poderia ter tido, chora os seus sonhos e a suas esperanças. Chora tudo o que não chorou durante anos e anos de vida solitária e errante. Agacha-se a um canto e deixa-se ficar a tremer e a chorar. – Desculpa Chopin… merecias melhor que isto na Consoada. – O cão gane baixinho e deita-se em cima do velho, que o afaga com os dedos magros e débeis. E é então, que sob um trovão ensurdecedor, a terra tremeu e o resto da cabana ruiu.
No dia de Natal, um sol frio mas radioso, penetra pelas janelas e acorda a vila adormecida. Alegres e agasalhados, de barrigas ainda cheias da noite anterior, dirigem-se à Igreja para assistir à missa de Natal. Conversam alegres. Falam na tempestade da noite passada, na alegria que era ter a família junta, nos presentes trocados…
A florista pergunta se alguém sabia do velho indigente. Mas ninguém sabia, ninguém o tinha visto. Ele não tinha aparecido para ir buscar os pães-de-leite, o peru, o vinho e a fruta. Ouvem-se vozes desconsertadas, embaraçadas, culpadas.
- Meu Deus, pobre desgraçado! Não me digam que passou a Consoada sozinho naquele casebre a cair aos bocados! – Gritou incrédulo e chocado, o dono da garrafeira. – Não chegou a vir buscar a garrafa de vinho… - murmurou para si próprio.
Um pequeno grupo forma-se. Apressam-se à cabana junto ao rio. A menina da padaria ia em ultimo, a chorar baixinho, - ele não veio buscar os pães-de-leite e a compota… devia ter ido à procura dele… oh – Repetia para si própria. Quando lá chegam, só encontram um monte de tijolos velhos e vigas de madeira podres. Avista-se por baixo dos escombros, uma mão branca e morta. Velha, triste, coberta pelo desamparo da morte.
As pessoas, de tez carregada de angustiada, começam a remover o entulho apressadamente. – Rápido! Rápido! – grita o ourives.
Conseguem chegar ao velho, que nunca ninguém chegou a saber o nome ou a conhecer a história. O cão, jazia em cima da sua barriga, como se tivesse feito um derradeiro esforço para aquecer o dono.
- Pobre desgraçado! Ninguém merecer partir deste mundo assim… - diz o ourives tristemente, carregado de culpa, rodando o anel de rubi no indicador.
- Merece um enterro condigno. – Levantam-se algumas vozes.
- Alguém tem de fazer alguma coisa. – Dizem.
- Sim… alguém tem de fazer alguma coisa.
oil painting por Rembrandt
Para Fábrica de Letras, "Natal"

























