terça-feira, 6 de Outubro de 2009

O virar das folhas

Lúcia passou com os dedos da mão direita pela estante dos livros. Sente as lombadas grossas, algumas em papel duro, outras em pele. Com o dedo indicador demora-se nas palavras gravadas na lateral de um ou outro livro, sentido a profundidade das letras, os relevos fundos que escondiam aventuras e segredos. Fecha os olhos e inspira aquele odor a papel antigo, a papel novo, a papel lido. Encosta a testa numa das prateleiras e fica imóvel... absorta naquele momento. O ladrar furioso do cão, vindo da rua, interrompe-a. Pega na Odisseia de Homero e abandona a biblioteca.
Corre a casa toda à procura de um canto sossegado. O pai está na sala a fumar charuto, a copeira anda a arrumar os quartos e a sacudir os lençóis de linho nas janelas, a mãe está na saleta a bordar, a irmã está no patamar das escadas a tocar violino.
Exaspera-se, sentindo um ódio visceral por toda a família. A existência deles apenas lhe causava entraves... a deles e a de todas as outras pessoas.
Percorre os trilhos do jardim, mas nenhum lugar é perfeito. Ao pé do lago ouve as rãs a coaxar, ao pé dos estábulos os cavalos relincham irrequietos, ao pé das macieiras os pardais piam numa histeria inusitada.
Embrenha-se nas entranhas do bosque, até que a frescura e a escuridão a abafam, cobrindo-a com um manto perfumado de paz e silêncio.
Por fim encontra um local de erva morna e fofa, ao pé de um enorme medronheiro. Deita-se e aconchega o vestido de forma a não sentir a pressão de botões ou de bainhas. Qualquer desconforto que pudesse sentir, goraria a viagem que estava prestes a principiar. Começa finalmente a ler, salivando-se como se estivesse a comer morangos cobertos de leite condensado.
Vivia para para aquele prazer, para unir letras que formavam palavras, para juntar palavras que se transformavam em frases, às quais depois dava a entoação correcta através dos sinais de pontuação. O som mais maravilhoso que se podia conceber aos ouvidos humanos era o virar das folhas... um som que se virava e desdobrava, que podia ser seco ou aveludado.
Desde pequena que seu quarto estava forrado de livros do chão ao tecto. Calculava que tivesse milhares. Milhares de aventuras em forma de palavras que ganhavam vida na sua imaginação fecunda. Já tinha sucedido por duas vezes as prateleiras sucumbirem ao peso das pesadas encadernações que vestiam as paginas. Numa dessas ocasiões, a velha governanta que naquele momento limpava o pó a uma figurinha de porcelana, levou com uma tonelada de livros na cabeça e nem tempo teve para um "Ui". Durante todo o funeral, Lúcia só pensava no privilégio que a anciã tinha tido. Que honra seria morrer subterrada em livros! A morte da governanta foi um verdadeiro desperdício dramático, visto que ela nem ler sabia!
A cada linha que percorre, viaja com o herói. Cheira o que ele cheira, escala com ele montanhas afiadas e navega os mesmos mares impetuosos... numa pagina sente o frio nos ossos e na seguinte o calor na pele.
Ouve a sineta para o jantar e fecha o livro suavemente. Repousa-lhe um beijo na capa dura e corre para casa.
Passava assim todos os dias da sua vida. A leitura era o seu único interesse e só interagia com as outras pessoas porque isso lhe era socialmente necessário. Não vivia uma vida própria... mas sim as vidas dos heróis e das heroínas das histórias que lia. Fantasiava muitas vezes fugir para uma cabana perdida no bosque, levando consigo apenas baús de livros, e ler até morrer. Poderia haver morte mais perfeita... dar o último suspiro entre um conto de La Fontaine e o temperamento de Maria Antonieta?
Lúcia não podia imaginar jamais, que cegaria aos trinta anos com com uma conjuntivite rara e fulminante, que a atiraria para as trevas.
Mesmo depois da funesta doença, sem qualquer esperanças de cura por parte dos médicos, ela continuou o seu vício. Agora ficava sentada numa cadeira, com o livro ao regaço. Apalpava-o, percorria com os dedos cada linha, cada folha. Passava-os pelas faces, pelo pescoço, pelo peito... Cheirava profundamente as capas de papel, com num deleite perfumado só possível de sentir nas perfumarias parisienses.
Morreu assim, feliz, aos noventa e seis anos, com um livro aberto nas mãos magras e secas... Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévsky.

Para Vou de colectivo - "Hábitos de leitura"

Oil painting by Wilson Homer

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

O magarefe


Três crianças jogam ao berlinde na rua poeirenta. Riem alto enquanto dão saltinhos agachados. Ouvem passos pesados e viram-se, ainda com um resto de gargalhada na ponta da língua. Ao verem o homem calam-se, e divertidas fogem para trás de um enorme carvalho à beira da estrada.
Esperam de respiração suspensa e entre risinhos nervosos que ele passe.
O homem já está habituado a esta reacção. Não o incomoda, na medida em que muita pouca coisa o incomodava e ainda menos coisas o faziam pensar duas vezes no mesmo assunto.
Era mais alto e entroncado que qualquer outro homem da aldeia. Nunca ninguém lhe tinha ouvido a voz... talvez apenas um grunhido numa ou outra rara ocasião.
Volta a casa depois de mais um dia de trabalho no matadouro. Tem as calças salpicadas com o sangue dos borregos que tinha desmanchado naquela tarde... nas mãos traz um saco de serapilheira com aparas de borrego que o patrão lhe dispensou. O saco está húmido e pinga, deixando pequenos pontinhos vermelho vivo decorando as pedras e fazendo-as parecer joaninhas gigantes secas ao sol. Talvez a mulher pudesse fazer um estufado para o jantar. As botas de cabedal mal curtido arranham o chão áspero e o peso de um dia de trabalho verga-lhe as costas.
Passa por três raparigas que regam uma sementeira... elas calam-se à sua passagem, num misto de embaraço e risos contidos. "Olha, é o magarefe!" - diz a mais nova, sufocando uma gargalhada com a mão. Acotovelam-se umas às outras na tontice própria da juventude.
- Magarefe! Doem-me tanto as costas... podes ajudar-nos a trazer baldes de água? - Grita-lhe uma delas, divertida.
Ele pára e vai ter com elas. Nunca dizia "não" a um pedido de ajuda... e naquela aldeia os pedidos de ajuda que lhe faziam era uma constante. Pega no pesado balde feito de ripas de madeira inchada e até ao pôr-do-sol faz incontáveis viagens entre a horta e o poço.
Quando pára por falta de luz, repara que as meninas há muito que tinham ido embora. Não pensa sequer nisso.
Antes de chegar a casa, ainda ajuda uma vizinha a guardar as galinhas no galinheiro. Toda a aldeia vivia dos favores daquele homem. Chegavam a acorda-lo a meio da noite para ir procurar cavalos fugidos e a maioria das vezes nem se lembravam de lhe agradecer a ajuda. No entanto ele era um homem genuinamente bom e ingénuo. Normalmente apelidavam-no de otário, pois é certo que a natureza humana tem destas crueldades injustificadas.
Ele continua, exausto. O saco de serapilheira já não pinga. Como qualquer homem que aspira pelo final do dia para poder descansar, ver os filhos, ou fumar um mísero cigarro enrolado... também ele percorria todos os minutos do dia com um único propósito, voltar para a mulher. Ela não o sabia, mas não abandonava o pensamento do marido por um segundo sequer.
A vila era tão no fim do mundo, que a expressão “fim do mundo” ganhava uma nova força quando se falava daquele lugar. Chegava a suceder o fenómeno de chover em toda a província, menos ali. No entanto ninguém estranhava o facto e compreendiam que Deus se tenha esquecido daquele lugar.
Entra em casa, e o cheiro a sopa de feijão leva-o à cozinha. A mulher cirandava numa azáfama de um lado para o outro cantarolando. Uma das pontas da bainha da saia estava presa na cintura, deixando ver as coxas morenas e cheias. O cabelo mal apanhado em desalinho, as faces rosadas e a respiração ofegante.
Olha-a com devoção... ela vira-se e ele baixa o olhar, tossicando... disfarçando a fraqueza.
“Chegaste!”, cantarola ela alegremente, “Tens fome?”, e antes que ele respondesse, encheu um prato de sopa e colocou-o na mesa.
Os longos dez anos de vida em comum com aquele homem que o pai lhe tinha arranjado, ensinaram-lhe que não valia a pena fazer perguntas. Ele raramente respondia e quase nunca proferia palavra. Estar casada com ele era o mesmo que estar casada com um muro de tijolos e ela já há muito que aprendera que a única forma de combater a solidão era ter amantes esporádicos que a faziam guinchar de prazer no meio das cearas de trigo.
Olha para ele de soslaio... é tão grande que parece entalado naquela cozinha minúscula. A colher desaparece algures naquelas mãos imensas e ela tem um arrepio nervoso.
Toda a aldeia sabia dos acessos de luxúria daquela mulher. A população assistia divertida aquela novela, rindo-se perante a ingenuidade patética daquele marido bruto e cego de amor. Chamavam-lhe “o magarefe chifrudo”, e verdade seja dita, tirando as tropelias deste caricato casal e as missas ao Domingo de manhã, pouco mais havia para fazer naquele lugar que nem o diabo se dignava a visitar. Talvez por não falar, quase não o tomavam por humano, mas sim como um monte de membros que se movimentavam como por magia, e que serviam apenas para os ajudar a levantar cercas ou a fazer telhados.
Ultimamente a mulher do magarefe andava a rebolar-se pelos campos com um dos trabalhadores dos caminhos-de-ferro. Enquanto houvessem carris para assentar, ela estaria servida, e por isso, descansada.
Acaso do destino (e como a vida é feita não do esperado, mas sim dos desvios do dia a dia), numa tarde quente de sexta-feira, ele é dispensado do matadouro antes da hora habitual. A sua perícia em desmanchar porcos tinha-o levado a acabar o serviço uma hora antes do tempo... o que acabaria por trazer à sua vida um novo rumo e bastantes dissabores para o resto da aldeia, como mais tarde se veio a verificar.
Vinha extremamente bem-disposto, o que no caso dele, não se traduzia em qualquer aspecto exterior visível a olho nu. O calor abrasador fazia-o transpirar em bica. Pensou que talvez fosse boa ideia dar um mergulho no rio antes de ir para casa... chegaria fresco e rejuvenescido e talvez até a levasse a mulher até à taberna da praça depois do jantar... e depois quem sabe, talvez ela o deixasse fundir na sua pele quente e morena.
Embalado pela boa disposição, começa a assobiar, o que sucedeu pela primeira e ultima vez na sua vida.
Soltava uma melodia improvisada e alegre por entre os lábios, enquanto as suas mãos fortes mergulhavam na água fresca que chilreava como pardais. Preparava-se para despir a camisa quando começou a ouvir um reboliço contido por entre o canavial. Risos, gemidos e palavras sussurradas e urgentes. Avança silencioso, atraído por aqueles sons que lhe eram estranhamente familiares. Os ossos arregalam-se quando se aproxima o suficiente para reconhecer as costas nuas da mulher, que cavalgava em cima de um rapaz com metade da sua idade. Arfava como uma gata com cio e parecia que toda a fornicação deste mundo seria insuficiente para apagar aquele fogo.
Ele afasta-se, atarantado e vagueia pelos campos sem tino... sem consciência. O choque da descoberta não o deixa reagir, e quando dá por si, está na praça da vila, mesmo em frente à taberna. Ouve muitas vozes de entoações diferentes e muitos risos. Resolve entrar e pedir um whisky para beber de um trago só. Talvez lhe atenuasse um pouco o choque.
As frases voam para rua, abafadas. "Não teve sorte com a mulher, de facto! Puta mais puta não há! As putas ao menos ainda cobram pelos serviços, mas esta é que pagaria pelos serviços de um macho se assim tivesse de ser!" - risos e mais risos - "Coitado do chifrudo do magarefe!" - uma gargalhada geral levanta-se ensurdecedora.
Ele fica lívido ao aperceber-se de que todos sabiam a vida que a mulher levava.
Alguém se vira para trás, ainda a meio de uma gargalhada e vê aquele gigante ali parado na ombreira da porta, lívido e inexpressivo, se é que uma combinação dessas fosse sequer possível.
Aos poucos calam-se e chegam umas cadeiras às outras, como se isso de alguma forma os protegesse. As mãos pendiam ao lado das ancas. Por algum motivo todos olham para as suas mãos. São tão grandes e fortes que podiam separar a cabeça do tronco de qualquer homem que ali se encontrava... corriam aliás rumores de que muita vezes o magarefe matava vacas não com um punhal, mas com uma torcidela de pescoço.
Ele não diz nada, apenas os olha fixamente. Naquele olhar lêem tristeza, desapontamento e sobretudo a dor da traição... não só da mulher, mas de toda a vila.
Ele volta para trás e corre para a igreja. Agora já não chora lágrimas de tristeza, mas sim de raiva.
Corre tudo à procura do padre. Encontra-o na sacristia e implora-lhe que o confesse.
Pela primeira vez fala... fala muito. Pronuncia palavras que nunca tinha usado na vida.
- "Tem de perdoar... sabe, a sua mulher tem uma natureza muito errante. Ninguém lhe contou porque tinham medo que sofresse". - O padre fala calmamente, contendo o riso miudinho de uma criança a fazer uma travessura.
O magarefe, atónito, lança-lhe a pergunta com o olhar.
- "Sim... eu também sabia." - Diz o padre agora pouco à vontade. - "Perdoe-lhes... perdoe todos. Jesus assim o faria."
- "Perdoar?" - Diz o magarefe com uma voz inexpressiva.
- "Sim... pague a todos uma rodada na taberna, ou convide-os para uma matança de porco. Perdoe meu filho."
O gigante traído balbucia um "sim" e sai da Igreja aos ziguezagues.
No dia seguinte não se fala de outra coisa da vila, e ninguém escondia um certo receio do magarefe, principalmente depois da mulher do padeiro ter dito que tinha sonhado que ele lhe tinha entrado em casa e a estrangulado durante o sono, cego pela vingança.
Na taberna todos falam em surdina, comentando o sucedido quando ouvem uma voz estridente vinda da ombreira da porta.
- "Boas!" - diz o magarefe com um sorriso estampado nos lábios.
Ainda estavam todos em estado de choque com o "Boas", visto que nunca ninguém lhe tinha ouvido a voz, quando ele remata - "Amanhã é domingo. Estão todos convidados para um churrasco em minha casa!".
Olham uns para os outros, perplexos, sem saber o que achar do convite, sem saber o que achar daquela mudança tão radical de comportamento, sem saber o que achar de nada.
Na noite de Sábado, a vila inteira sonhou que o magarefe lhes entrava pela casa a dentro e os estrangulava durante o sono.


No Domingo, depois da missa, seguiram em fila, ansiosos e ensopados em nervoso miudinho, para casa do cornudo. Alguns iam em coches, outros a cavalo e os mais humildes caminhavam a pé.
O magarefe tinha improvisado várias mesas vestidas de toalhas brancas no jardim.
Cumprimentava todos, sorridente, falando pelos cotovelos. Grelhava a carne ele mesmo, e depois distribuía-a pelas mesas. Não deixava um copo ficar sem vinho, ou um prato sem pão. A carne estava tenra e suculenta, e em passado um bocado, já todos riam, aquecidos pelo deus Baco e maravilhados com o sabor da carne.
- "A sua esposa?" - pergunta a mulher do sapateiro. - "Ah, anda por aí" - disse ele abrindo os braços em jeito de vénia, abrangendo todo o jardim - "Ela já vem... comam, comam" - dizia rindo.
A filha do calceteiro, uma menina de cinco anos, na inquietude própria da idade, começa numa correria desenfreada pelo jardim, pelo quintal... entra e sai da casa, dos currais, do celeiro, até que entra na casa de desmanche dos porcos e carneiros. O local é gelado e escuro e ela franze as sobrancelhas a fim de adaptar os olhos à escuridão. E é então, que o seu coraçãozinho de cinco anos quase pára com o choque. Em dois ganchos da parede, estão a cabeça da mulher do magarefe e de um jovem rapaz. A mesa do desmanche, em pedra, tem esquecidas algumas tiras de carne, atiradas ao acaso e que pingavam sangue para o chão.
Ela corre dali para fora, espavorida, aos guinchos e soluços. "Cabeças! Estão ali cabeças! Mamã!". A mãe volta-se para ela com um naco de carne suculento pendurado num dos cantos da boca. "O que foi meu amor?". O magarefe tem um sorriso gelado desenhado nos lábios. Toda a gente corre a verificar a veracidade da história.
Então aos encontrões naquele pequeno matadouro e dão de caras com o horror. Começam a vomitar pelos cantos, enojados, agarrados ao estômago. Percebem então, quase todos em simultâneo, que o magarefe tinha morto a mulher e o amante. A seguir esventrou-os, sangrou-os, cortou-os em postas e ofereceu-os em forma de banquete à vila inteira. A vingança é um prato que se serve frio, mas ele serviu-o grelhado e acompanhado com puré de batata e salada de tomate.
O horror fez toda a gente fugir em debandada, como um bando de pássaros assustados.
O medo apoderou-se da aldeia, e ninguém chamou as autoridades, pois demoravam mais um mês a vir da capital, e quando lá chegassem, já o magarefe os teria transformado todos em febras.
A partir daquele dia já ninguém pedia favores ao homem... mas sim o inverso. E foi assim, que em menos de um mês, pintaram a casa ao magarefe, trocaram-lhes as janelas, refizeram todo o jardim, e as senhoras revezavam-se para lhe levar o jantar todas as noites. Nunca mais se comentou o sucedido... nem quando se mudou para a vila o novo farmacêutico viúvo com a sua filha solteirona impetuosa e refilona.
Quando o farmacêutico conheceu o magarefe, simpatizou imediatamente com ele, pois sabia-o também viúvo, e é muito triste um homem viver sem uma mulher. Após breves conversas, ambos acordaram que se casasse com a moça, que já tinha vinte e oito anos e por isso já algo acabada e em dificuldades em encontrar marido.
O casamento durou dois anos sem percalços, até ao dia em que a mulher se apaixonou perdidamente pelo cabreiro. A vila assistia ao romance com o coração nas mãos... sem terem coragem para avisar a rapariga e muito menos o magarefe.
Infelizmente para todos, depois do desaire que foi o seu primeiro casamento, o homem ficou com os sentidos muito mais apurados... esperteza de raposa, olfacto de javali e olhos de falcão.
Numa noite de Sábado, estava a taberna cheia, quando o magarefe apareceu à soleira da porta com um sorriso estampado nos lábios.
- "Boas! Amanhã é domingo. Estão todos convidados para um churrasco em minha casa!".


oil painting 1 Vincent Van Gogh
oil painting 2 Peter Severin Kroyer


segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

A menina que tinha medo de morrer


Leva a ultima garfada de bolo de mel à boca com as mãos trementes pela antecipação da angustia que a espera. A sobremesa era a ante câmara dos horrores que marcava a sua iminente ida para a cama.
Depois do jantar, o pai retirava-se para o salão onde fumava charutos e bebia brandy à lareira. A mãe sentava-se ao lado dele bordando paninhos e mais paninhos de linho, destinados ao esquecimento no fundo de baús que se iam empilhando no sótão.
A governanta escoltava-a ao quarto. Caminhava à sua frente rasgando as trevas com uma pequena lamparina de azeite.
Amortalhada nos lençóis rendados, ficava inerte, noites a fio, olhando as sombras das árvores que a lua projectava na janela.
Há três anos que não dormia. Lembrava-se da noite em que tinha deixado de dormir. Costumava perder-se em devaneios antes de adormecer e naquela noite em particular, lembrou-se do enterro da bisavó, e como lhe obrigaram a depositar um derradeiro beijo na testa da defunta. Lembrava-se ainda da textura enrugada da sua testa, da pele gélida... do cheiro a corpo morto.
Por um momento, aquela recordação permaneceu-lhe na boca, ganhando um travo amargo... e de um momento para outro, algo dentro de si enfrentou a certeza da morte, a certeza da efemeridade da vida, a certeza de que iria um dia morrer. E foi assim, que com apenas treze anos, na escuridão do quarto, tomou consciência da sua própria mortalidade. O estômago contorceu-se, as suas entranhas reviraram-se enlaçaram-se em nós impossíveis de desfazer... fisicamente, sentia que todos os seus órgãos se embrulhavam numa espiral de agonia. Começou com suores frios que lhe empapavam a camisa de dormir de algodão e toda ela tremia de medo perante a certeza de que um dia estaria morta. Ia ser engolida pela terra, ia cessar de existir, ia ser alimento para os bichos que habitavam o solo húmido e frio. Ia encontrar a escuridão eterna... o nada, o vazio, o fim. Aquele pensamento forrado de agulhas ácidas penetrou em todo o seu corpo, em cada célula, em cada centímetro de pele. Envolveu-lhe cada fio de cabelo, entrou-lhe pela boca forrando a língua de uma camada pastosa e acre.
Na manhã seguinte encontraram-na a arder em febre, delirando, balbuciando palavras sem nexo... e assim passou seis meses.
O médico não conseguiu encontrar razão física para o estado da menina, declarando por fim que ela deveria ter demónios no corpo e deveria ser exorcizada. Na manhã em que é esperada a vinda do padre, ela melhora inesperadamente. Levanta-se da cama, e pergunta se há pão-de-ló. Os pais perplexos, tomam o acontecimento como um milagre, e como agradecimento, doam à paróquia cinco hectares de terras férteis.
Numa análise mais desatenta, ela parecia curada... mas ninguém reparou que não havia vida nos seus olhos e que parte dela está já morta.
Não volta a dormir. Passa as noites a pensar na morte... esses pensamentos, apesar de estarem já sempre presentes durante o dia, ganhavam uma nova vida na escuridão do quarto. Ela pressentia a chegada daquela sensação de mortalidade que lhe revirava as entranhas e que quase lhe parava o coração com o choque. O baque que esses pensamentos lhe provocavam era sempre violento e intenso como no primeiro dia. Às vezes tentava afasta-los, mas eles voltavam com ainda mais força e ela acabou por desistir, entregando-se... completa, nas trevas.
E desta forma, ela vivia o dia, temendo o cair da noite.
As noites de lua cheia eram gentis para ela... a luz tépida do luar que penetrava os cortinados de organza brancos, quase lhe dava a sensação de que era dia, e nessas noites ela chegava a dormitar um pouco, entre pestanejos leves.
Nas tardes de verão, o cheiro a rosas inundava todo jardim, em vagas de cheiro quase palpáveis. Ela adorava dar pequenos passeios, envolta naquele perfume das rosas e por entre a sombra fresca dos ciprestes centenários. Numa dessas tardes, enquanto observava o seu próprio reflexo nas margens do lago, é atingida pelo baque de pensamentos funestos que só tinha à noite. Fica perplexa, ofegando violentamente, de corpo hirto e braços caídos. Os punhos cerrados traduziam a sua raiva.
Como podia isto estar a acontecer durante o dia? Era à noite! Sempre à noite! Como é que aquela sensação horrenda tinha encontrado o caminho por entre a luz do sol e chegado até ela? Ela não ia aguentar... como podia? Dia e noite, até ao dia em que morresse... a certeza da morte iria persegui-la, para onde quer que fosse. Sempre.
Não consegue jantar... tem o estômago em agonia e transpira entre tremores violentos. Os pais mandam-na para o quarto, julgando que ela devia ter apanhado uma gripe, ou uma outra qualquer febre de Verão. Caminha com passos lentos e hesitantes... a maçaneta de porcelana gelada, dá-lhe uma sensação agradável quando a agarra e a gira.
A escuridão do quarto engole-a, implacável.
Deita-se na cama, como que se deitando num caixão... de braços cruzados no peito. O luar entra doce pela janela... mas isso já de nada lhe serve. O medo tinha conseguido abrir caminho por entre a luz.
A claridade morna da manhã encontra-a morta, de rosto contorcido, petrificado pela angustia.
Tinha morrido de medo, a menina que tinha medo de morrer.

pic in deviantART

terça-feira, 14 de Julho de 2009

A morte estúpida do Sr. Jarvas


O Sr. Jarvas teve uma morte estúpida.
O enterro, em vez de ter sido uma manifestação de pesar, tinha-se tornado num boca a boca de comentários sorrateiros e irónicos a respeito de quão estúpida tinha sido a morte do homem.
O Sr. Jarvas tinha morrido no Domingo de manhã ao tentar queimar um vespeiro que tinha encontrado ao pé da estufa do jardim. A morte tinha ocorrido, por volta do meio dia, quando, ignorando os conselhos de Dona Antonieta, para que estivesse quieto e que esperasse que os empregados voltassem do casamento da filha da cozinheira, tinha resolvido, ele mesmo tratar do assunto. “Pára Jarvas! Os empregados depois tratam disso! Está muito alto... não chegas lá!”. Dona Antonieta exasperava-se e implorava que ele descesse do escadote. “Sou homem muito homem, mulher! Não me achas capaz de tão simples tarefa?”, perguntou-lhe ele quase com o orgulho ferido. “Não sejas tolo, sai daí! Ainda te picam!”, gritava a mulher de mãos unidas em punho, apertando o estômago, com o corpo rígido, antecipando a angústia de ver o vespeiro ganhar vida. “Homem que é homem não tem medo de umas picadazinhas, e eu sou muito homem!”. “Eu adoro-te Jarvas... sabes que te adoro, mas tu dás comigo em doida! Em doida!”
Ordena então à mulher que se despache a ir buscar álcool e fósforos e que pare com a rezinguice, porque eram quase horas de almoço e ele estava a começar a ter fome... e homem que é homem não pode estar de barriga vazia.
E é então que se dá a cadeia de acontecimentos estúpidos e fatídicos, que transformam o Sr. Jarvas num defunto.
No topo das escadas, de frente a frente com o vespeiro adormecido, uma libelinha passa-lhe rente ao nariz o que o faz dar um sonoro e potente espirro. Um espirro tão forte que quase o faz perder o equilíbrio. Depois de alguns malabarismos, lá consegue manter-se no topo da escada, mas as vespas estavam agora acordadas. Começam a sair, atarantadas, procurando intrusos. O Sr. Jarvas leva com cinco picadas na testa, enquanto esbraceja apenas com um braço, como um pássaro com uma asa partida, mas que mesmo assim tenta voar. Com o choque do inesperado e a testa em fogo, desequilibra-se e cai de cabeça dentro de um balde meio de água que estava esquecido no chão. Tenta levantar-se, mas uma das vigas de madeira, que estavam apoiadas na parede, destinadas a fazer uma nova vedação para os cavalos, lhe cai em cima e o faz perder os sentidos.
E é assim que D. Antonieta encontra o marido um minuto depois... de buços, com a cabeça enfiada dentro de um balde e afogado num palmo e meio de água.
Findo o serviço fúnebre, (em que D. Antonieta jura ter ouvido rizadinhas contidas), volta para casa, numa carruagem abafada, abanando o leque vigorosamente, contendo a raiva e amaldiçoando o teimoso do marido, cuja azelhice e teimosia a tinham atirado para a condição de viúva.
O calor apertava mais do que nunca, como se o sol tivesse decidido, sem dó nem piedade, incinerar a Terra naquela tarde. Entra em casa, desgostosa, furiosa, chispando raiva, e começa a arremessar bibelots de porcelana e jarrinhas de cristal para tudo quanto era lado. Os empregados fogem espavoridos, abrigando-se da patroa nos lugares mais recondidos da casa.
Sobe para o quarto em passadas largas e iradas, fazendo a casa estremecer com os tacões do sapatos. Quando abre a porta, é atingida por um baque gelado que lhe tira a respiração. O quarto parece coberto de gelo... ela consegue mesmo ver uma névoa gelada a pairar, e vê sair da sua boca um bafo quente.
Fica atónita, parada no meio do quarto, sem perceber o fenómeno. Vai até à janela para ver se as estações se tinham trocado repentinamente, tendo o Verão dado lugar ao Inverno. Mas não... lá fora o calor continua impiedoso.
É então que se volta e dá de caras com o marido, sentado num pequeno sofá, com o cabelo a pingar água e com cinco hematomas inchados de picadas de vespa na testa. Leva a mão à boca e solta um grito rouco, “Jarvas!”. Mas o marido não lhe responde... afinal, havia mortos que falavam, mas este não era o caso. Lança-lhe apenas um olhar pesaroso de mágoa e vergonha e baixa os olhos.
O choque inicial dá lugar à raiva. “Jarvas!! Seu estúpido! Que estás aqui a fazer? Estás morto! Não deverias estar a voar em direcção ao Céu, ou ao Inferno?... Vai-te embora, deixa-me! Não podias ter deixado o vespeiro em paz? Tinhas que te armar em valente, não era? Sempre foste um gabarola patético!”. O Sr. Jarvas mantinha-se em silencio, mas mostrava agora um ar ofendido com as palavras da mulher. E é então que dentro da sua cabeça, a Dona Antonieta ouve a voz do marido, “Não me trates assim... olha em que estado eu estou.”. Dona Antonieta engole em seco... “Em que estado tu estás? Estás morto! É esse o estado em que estás!”, continuava ela, e cada palavra hostil que lhe saia da boca, alimentava mais palavras hostis, numa espiral imparável de insultos e impropérios.
O marido fica cabisbaixo e triste, ouvindo tudo aquilo... até que não aguenta mais e começa a chorar... “Pronto, pronto... desculpa. Não fiques assim. Estou muito aborrecida, sabes...?”. Dona Antonieta quebra perante a visão do marido, de cabelo molhado, coroado por picadas de vespa e de olhar triste. O quarto gélido obriga-a a vestir um vestido de lã e a colocar uma mantinha nos ombros. “Trouxeste contigo os ventos da Sibéria? Credo homem! Mais um pouco e começa a nevar aqui dentro. Vais ficar por cá?”... dentro da sua cabeça, ouve-o dizer que não sabe... que apenas está ali... um morto caminhando no mundo dos vivos. “Isto é aborrecido, sabes? É aborrecido. Vai estar sempre assim tanto frio?”... mas isso ele também não sabe.
Começa a tocar a sineta energicamente, chamando uma empregada. Precisa de um chá quente imediatamente, antes que morra de frio. “Jarvas, fica aí quietinho, nada de gestos bruscos... não quero que a rapariga se assuste.”... ele acena concordante.
A empregada entra ofegante, com o suor a escorrer-lhe da testa e do pescoço, amaldiçoando o calor abrasador. Pára atónita, olhando para a patroa vestida com pesados trajes de Inverno e mantinha nos ombros... “Minha senhora...sente-se bem?” pergunta timidamente, quase muda de espanto .”Pareço-lhe bem? O meu marido morreu e agora aparece-me aqui assim, neste estado! Como posso estar bem?”, cospe Dona Antonieta enquanto aponta para o marido sentado a um canto. A empregada olha para o sofá vazio, sem perceber. O seu olhar transparece incompreensão. “Não o vês? Não o vês ali sentado? O idiota do meu marido... não o vês?” ... mas a rapariga não via nada. “Jarvas, ela não te consegue ver?”, pergunta irritada... Mas ele não sabia. “Não sabes nada, tu! És um inútil! Um inútil e um imbecil!! Oh... desculpa, desculpa! Meu amor... desculpa. Isto é tudo tão aborrecido...”, vai ela dizendo com gestos exasperados.
O médico é chamado com urgência e declara que a senhora está com um esgotamento nervoso provocado pela morte do marido, mas que irá com certeza melhorar. Até lá, não deveria ser contrariada para que não ficasse ainda mais perturbada.
Os empregados vão sobrevivendo como podem aos ataques de raiva da patroa. Dona Antonieta não percebe como é a única a conseguir ver o marido, com a agravante de ser a única a morrer de frio por aqueles lados. Chega a pedir, numa das tórridas noites de Verão, que lhe acendam a lareira da sala... o que fez com que uma empregada desmaiasse de calor enquanto lhe servia a sopa ao jantar.
Os dias passam e a senhora não melhora. O médico é novamente chamado, mas desta vez abandona a casa com um semblante pesado e triste.
No pequeno quartinho, Dona Antonieta, de luvas e gorro de lã, está sentada numa mesinha com o marido. “Queres jogar xadrez, Jarvas?”, ele responde que não... que prefere damas. “Damas é para idiotas Jarvas!! Como me irritas, homem! Eu adoro-te, juro que te adoro, mas tu dás comigo em doida. Em doida!”.
Entra uma mulher e pousa um tabuleiro de chá a ferver na mesa, “O seu chá, senhora...”, diz ela gentilmente. “Ah! Obrigada! Muito obrigada! Sempre aqueço um pouco... está a ver o idiota do meu marido? Queria jogar damas... é porque sabe que jogo muito melhor xadrez que ele... homens! Toda a gente sabe que damas é para burros!”, resmunga Dona Antonieta com um ar de desprezo. O Sr. Jarvas, baixa a cabeça, envergonhado, exibindo a testa forrada de picadas de vespa. A mulher sorri e assente, divertida. Sai, a porta fecha-se e uma chave gira.
Passados vinte minutos, ressoa o riso de D. Antonieta por todo o manicómio. “Ah Jarvas! Nunca me consegues ganhar! És um péssimo estratega Jarvas! Péssimo! Meu adorável tolo...”.

pic by Meltys

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A viúva


Os passos são imprecisos e sem pressas, a dor tirou-lhes a precisão e a falta de vontade de viver tirou-lhes a pressa.
O marido deixara de existir... a dor era-lhe insuportável. A cada minuto ela esperava que o coração cedesse e parasse... mas o coração continuava a bater, e os minutos iam passando, cruéis e intermináveis, uns atrás dos outros, e ela continuava viva também. O coração não parava, por mais que ela o desejasse.
Os filhos já crescidos viviam longe, na cidade. As visitas eram raras devido à distancia. Via os netos apenas no Verão, quando todos vinham passar o quente mês de Agosto à casa da sua infância, e as tardes se passavam a nadar no lago, a beber limonadas e a comer bolo de groselha.
Não queria alarmar os filhos com a notícia, nem queria que chegassem precocemente. Mandaria um telegrama a informa-los da morte, e eles chegariam no dia a seguir. Tinha previsto tudo até ao mais ínfimo pormenor, e queria tratar de tudo sozinha para evitar dar trabalhos aos filhos.
Continua a caminhar, evitando as estradas e cruzando os bosques... queria contornar a vila, onde todos a conheciam, e seguir até à vila seguinte.
No dia anterior tinha despedido todos os empregados, entregando a cada um uma generosa porção de dinheiro, o que os deixou surdos de espanto, e ordenou-lhes que partissem. Queria estar só. Não queria ouvir um som. Abriu as portas das capoeiras, dos estábulos, a cancela da cerca das ovelhas e foi-os enxotando para fora da propriedade. O que mais ambicionava era o silencio total e amaldiçoava as aves que das árvores continuavam o seu alegre chilrear.
Caminhava vagarosamente, deixando que as ervas selvagens lhe rasgassem as bainhas rendadas do vestido. A viagem acumulou pó no seu cabelo, no seu vestido, na sua na sua cara... duas linhas de lágrimas abriram caminho por entre o pó das faces, como pequenos ribeiros nascidos da mesma nascente, e que seguiram caminhos opostos.
Os sapatos forrados de cetim revelaram-se muito pouco apropriados para a caminhada, pelo que os tirou e continuou de pés descalços.
Avistou o vilarejo com um alivio agradecido... o seu corpo dizia-lhe que ela não conseguiria andar mais uma passo.
Voltou a calçar os sapatinhos e penetrou nas ruas sinuosas. Quem passava olhava de soslaio para aquela estranha, de aparência burguesa. O vestido de renda inglesa marcava-lhe o corpo esguio que a idade não tinha atraiçoado.
Era bonita a senhora.
Não tinha mais de quarenta e cinco anos, a senhora.
Tinha um ar perdido, a senhora.
Caiam lágrimas silenciosas dos olhos da senhora.
Perguntou onde era a casa funerária e uma mão confusa apontou-lhe uma rua.
Seguiu na direcção que a mão lhe apontou, de cabeça erguida, enquanto mordia os lábios tentando controlar a dor.
Empurrou uma porta adornada com arabescos de ferro enferrujado, que por sua vez fez tocar uma sineta algures nas entranhas da casa.
Surgiu um senhor, vestido com um fato negro, como se estivesse preparado para partir para um funeral a qualquer momento. Deixou cair um aceno cordial e a sua boca desenhou um sorriso breve, frio e profissional.
- Queria tratar de todos os aspectos que envolvem um funeral. - atirou ela de rompante sem sequer dizer boa tarde.
- Com certeza minha senhora... deixe-me desde já dizer-lhe o quanto lamento a sua perda. - Disse ele num tom de quem já tinha repetido esta frase centenas de vezes, carregada com a certeza de que a iria repetir centenas de vezes mais.
- Obrigada. - disse exausta, deixando-se cair num pequeno sofá forrado a veludo verde musgo. - É a primeira pessoa com quem falo... espero que possa tratar de tudo sozinho. Não tenho forças para mais. Pago-lhe tudo em avançado, e já. Acha que tem capacidades para isso?
O homem de negro, que cheirava a morte, a falso pesar e a ganância, assentiu com um brilho nos olhos.
- Posso saber quem perdeu?
- O meu marido. Perdi o meu marido... não tenho mais nada, sabe... não tenho mais nada.
O homem de negro tinha um pequeno discurso adequado a estas situações, um discurso que pretendia dar algum alento aos familiares do defunto... mas algo nesta mulher lhe disse que o melhor era guardar silencio.
Escolheram então o caixão, as flores, os cânticos para a missa fúnebre, os bilhetes de aviso para os familiares e amigos a respeito do velório e um pequeno texto a ser publicado no obituário dos jornais da vila e das terras vizinhas... se bem que ela disse que talvez fossem preciso fazer algumas alterações de ultima hora, mas que confiava no seu bom senso e profissionalismo, já que ela queria ser deixada em paz depois de todos os preparativos. Entregou-lhe por fim a morada do médico que era suposto declarar o óbito.
- Mas o médico ainda não foi avisado? - admirou-se o homem.
- Trate você disso, e de qualquer das formas detesto aquele velho metediço. Acho que não tenho de lidar com quem não queira neste momento... não lhe parece? Já me basta... - parou, contendo as lágrimas.
- Mas... sim, claro. Eu informo o médico.
- Entregue tudo nesta casa amanhã de manhã. - disse de voz sumida, entregando-lhe um papelinho com a morada.
- Ainda é longe! - admirou-se -A senhora veio de muito longe! - a afirmação carregava uma pergunta.
- Não queria enfrentar os meus amigos, sabe... os olhares de pena, as manifestações de pesar. Só quero que tudo acabe de uma vez por todas. Vir aqui foi mais simples... sabe...
O homem não sabia, mas assentiu com um ar grave. Normalmente as pessoas que perdiam alguém procuravam conforto nos braços de familiares e amigos... mas este não era um caso normal, assim como não o eram a determinação e a força desta senhora.
Ela pegou na bolsinha e tirou dinheiro suficiente para pagar aquele funeral dez vezes. Ele admirou-se e estava prestes a recusar - Não me serve de nada, sabe... o dinheiro, não me serve para mais nada... o meu marido morreu... nada mais faz sentido. E o meu coração ás vezes parece que vai parar com a dor, sabe... mas não pára. Eu fico quieta à espera que pare, mas não pára... se ao menos parasse...
Ele ficou imóvel, hirto ao som daquelas palavras inesperadas, tomando agora a verdadeira consciência da dor daquela mulher, e calculou que tivesse ficado um pouco louca com a morte do marido.
Ela sai pela porta forrada de arabescos, fazendo a campainha tocar novamente. Volta por onde veio, sem se despedir, ignorando os olhares curiosos que atraia pelas ruas. Encontra uma estação de correios e envia um telegrama a cada filho... o corpo treme-lhe ao antever a dor que aquelas simples palavras vão causar.
Volta a entrar nos bosques, e novamente de sapatos na mão, percorre todo o caminho até casa, demorando várias horas.
Chega ao final da tarde, com os pés a sangrar, mas com um alívio imenso. Estava tudo tratado. Agora poderia finalmente descansar.
Atravessa o jardim que a leva a casa, desvia-se para as traseiras e fica parada em frente uma estufa de conteúdo luxurioso. Era do marido... ele tinha-a construído sozinho durante meses de dedicação obsessiva. Cada roldana, cada prateleira, cada telha de vidro, tinham sido cautelosamente montadas, dando a possibilidade de se entregar à sua grande paixão... a botânica. Desde então coleccionava flores e ervas raras de todo o mundo e passava grande parte do seu dia contemplando a sua obra, regando e falando com as plantas como se fossem seres humanos, e, jurava-lhe ele, elas falavam com ele também. Ela ria-se e chamava-lhe velho tolo.
Entra na estufa e sente de imediato um perfume inebriante que lhe enche os pulmões e lhe atordoa os sentidos... passa com mãos por aquelas pétalas aveludadas, da mesma forma que viu o marido fazer tanta vez.
A esta hora os filhos deveriam estar prestes a receber os telegramas. Suspira.
Caminha até ao final da estufa e pega num ramo de um pequeno arbusto carregado de bagas negras... o marido tinha-lhe explicado que era beladona... uma planta rara e extremamente venenosa. Pergunta-se porque teria aquele adorável velho tolo dado abrigo a algo assim tão letal. Mas além das bagas venenosas, a planta produzia uma flor linda que sempre a tinha fascinado. Arranca um ramo e entra em casa... faria um bonito arranjo floral na jarra de cristal que estava vazia na sala.
Toma um longo banho, limpando a poeira da longa caminhada e veste-se de negro integral. A cor do luto, a cor da morte...
Recosta-se numa poltrona e beberrica delicadamente um copo de licor. Pensa no carro funerário que chegará na manhã seguinte, no caixão, nas coroas de flores e finalmente nos seus filhos... esboça um derradeiro sorriso. Estende o braço para uma mesinha redonda ao lado do sofá e pega numa moldura de prata com uma foto do marido. Chega a moldura aos lábios e repousa-lhe um beijo... "Dois anos... já partiste há dois anos, dois anos que bem podiam ser dois séculos...".
Pega no ramo de beladona e arranca uma das bagas negras... enfia-a na boca e engole-a com um trago de licor... depois outra, e mais outra, e mais outra...


pic in devianArt

terça-feira, 21 de Abril de 2009

Marie


A cadeira de baloiço dança suavemente para trás e para a frente enquanto Marie bordava, com gestos delicados, pequenas flores em fio de prata no decote de um vestido de seda preto. O seu olhar pousa enfastiado no tecido negro e sente saudades do tempo em que apenas vestia roupas garridas e cheias de vida. Esse tempo, o tempo em que colocava flores vermelhas no cabelo e corria à beira das falésias pelas praias da Normandia, não voltaria mais. A morte do marido ditou-lhe um luto eterno e regrado. Além do preto, também se permita ao branco, mas apenas aos Domingos. Tinha lido algures, que em certas culturas o branco era usado em sinal de luto... por isso achava que não era desrespeitoso vestir-se de branco uma vez por semana.
Marie Godard sabia que não passava de apenas mais uma viúva de guerra igual a tantas outras... não se julgava especial ou mais infeliz, nem sequer pensava nisso. Não tinha chorado muitas lágrimas pela morte do marido, pois já conhecia aquela fatalidade de antemão. Aos doze anos, enquanto cirandava pela feira da vila, uma velha cigana sem dentes e enfeitada de inúmeras moedinhas de ouro, pegou-lhe na mão, sem que Marie se tivesse sequer apercebido da sua presença, e de olhos semi cerrados como em transe de pitonisa grega, lhe sibilou que iria casar cedo com um homem que não amava, que teria apenas um filho menino e que iria enviuvar cedo devido a um grande tumulto... ia para acrescentar mais qualquer coisa... mas a visão que se apoderou da cigana parece ter sido tão aterradora que esta apenas esbugalhou os olhos chocados de horror e disse apenas num murmúrio "Oh... oh minha menina...". Foi então que o pai de Marie se apercebeu daquela velha que agarrava a mão da filha, e furioso deu um empurrão à velhota atirando-a ao chão. "Ciganos malditos!!".
Marie nunca mais esqueceu a cigana e o futuro que ela lhe leu nas linhas da mão. Acabou de facto por casar com o seu amigo de infância Pierre, o qual não amava, mas que era um bom homem e um bom marido. Daquela união nasceu de facto apenas um menino, Maurice. Na manhã em que o marido partiu para a guerra, ela já sabia que aquela seria a ultima vez que o veria e de facto, dois meses depois, chega a noticia de que Pierre tinha sido crivado para além do reconhecimento por uma mg42 alemã... Marie apenas soltou um suspiro de resignada tristeza.
Voltou então para casa dos pais, uma bonita cottage no litoral da Normandia... passando o tempo a cozinhar compotas com a mãe, ler, bordar ou simplesmente deliciando-se com os risos do filho que brincava no jardim.
O pai de Marie, Eugénie Godard, era um homem robusto e de ar prazenteiro... o facto de ter nascido no seio de família abonada e com negócios enraizados já há gerações, deu-lhe a despreocupação suficiente para se dedicar ao que mais amava... pintura, musica e escrita. Quando a França foi ocupada pelos nazis, Eugénie tornou-se num homem sisudo e calado... costumava sentar-se na biblioteca depois de jantar a saborear um brandy com um olhar carregado e pensativo. Não dirigia a palavra a ninguém, abrindo apenas uma excepção ao neto por quem nutria um amor que ele próprio não conseguia explicar. No ultimo ano tinha começado a receber estranhos a altas horas da noite com quem mantinhas breves conversas em surdina, e que partiam tão depressa quanto tinham chegado. Ás vezes ausentava-se durante dias seguidos, e quando lhe perguntavam onde tinha estado, ele apenas atirava ao ar uma breve justificação... "Negócios... fui a negócios..."
As tropas alemãs, lideradas pelo monstruoso General Karl Heydrick, tinham tomado controlo de toda a Normandia... os ventos furiosos que anunciavam o Inverno espalhavam em todas as direcções terror e medo. Havia pessoas detidas para interrogatórios que nunca mais voltavam, casas eram pilhadas, assim como quintas e lojas. As SS chegavam por vezes a fazer execuções à luz do dia em frente do máximo numero de pessoas possível, tentando desmotivar os rebeldes da La Resistance , e todos os opositores do regime.
O General Karl Heydrick era um homem cruel e sádico. Dizia-se que tinha sido em tempos um homem bondoso e gentil... mas o facto de a mulher que amava nunca lhe ter conseguido dar um filho, tornou-o num furacão de frustração e rancor. Ter-se alistado nas SS deu-lhe a oportunidade de libertar o ódio que lhe envenenava o sangue. Um homem sem um filho varão nunca poderia ser um verdadeiro homem! Um homem sem descendência não tinha propósito sobre a terra.
Vivia assim aguardando o mês em que a esposa não lhe mostrasse tristemente a roupa interior manchada de sangue... mas esse mês não chegava nunca, e passados alguns anos já nada restava do bondoso e gentil Karl Heydrick. O seu lugar tinha sido ocupado por um monstro protegido e alimentado pelo governo nazi, sendo as suas políticas extremistas o perfeito refúgio para descarregar a sua frustração, e acabou assim por se tornar um dos mais temidos generais do regime.
Marie ouvia tudo isto pela boca dos criados... descreviam-lhe um homem de cabelo louro, quase branco e de olhos azuis sem vida, e tão alto que havia portas em que ele tinha de se inclinar para passar. Diziam que era tão cruel que já tinha executado homens em frente dos próprios filhos, sempre com um sorriso de satisfação nos lábios. Ela encolhia-se e tremia perante a ante visão de tamanha monstruosidade.
Sabia que a segurança que sentia em casa dos pais era apenas ilusória e que podia ser quebrada a qualquer momento. Tentava alienar-se desse medo e levar uma vida normal... refugiava-se no pequeno Maurice de quatro anos... uma réplica do pai. Olhos ternos e sorriso fácil e doce. O cabelo negro caía-lhe em pequenas madeixas grossas que ele afastava dos olhos constantemente.
A certa altura, Eugénie Godard começou a andar animadamente agitado. Parecia uma criança nervosa a quem tinham prometido um presente. Conferenciou a Marie, no meio de enorme sigilo, que havia rumores que estava previsto uma invasão das tropas aliadas para breve. Sabia que que estava a ser reunido um contingente de muitos milhares de soldados. O domínio nazi sobre a França tem os dias contados, dizia Eugénie de olhos vidrados e irrequietos. "Vão desembarcar aqui filha... aqui na Normandia! A liberdade está próxima... quem me dera ter a honra de executar eu mesmo aquela besta do Karl Heydrick!" - Marie escutava, nervosa enquanto abraçava o filho e o apertava contra si.



Os dias passavam lentos e doces... Marie não se interessava pela ocupação nazi, Marie não se interessava por guerras e por soldados. Protegida pelos altos muros que rodeavam os jardins da casa de seus pais, vivia alienada de tudo isso. Apenas Maurice lhe interessava. Começava a achar os devaneios de seu pai aborrecidos e irreais, saídos da boca de um velho demente e fanático.
As mais altas patentes do exército alemão conheciam já os planos dos Aliados. Mas a Normandia tinha uma costa imensa e ninguém sabia onde ou quando se iria dar o ataque. O General Heydrick passava horas por detrás da sua secretária de carvalho e de olhos semicerrados, enquanto desconfiava em silencio de tudo e de todos... Dava ordens atrás de ordens e fazia questão de verificar ele próprio se eram ou não cumpridas. Ao mínimo incumprimento ou desvio do plano original, o General levava a cabo um sumário tribunal de guerra que constituía basicamente num tiro à queima roupa na têmpora do soldado faltoso.
São construídos bunkers ao longo de toda a costa da Normandia... vedações de arame farpado são erguidas ao longo de muitos km de praia... milhares de minas são enterradas. O exército alemão andava nervoso... a expectativa era enlouquecedora...
É no seu escritório, no meio de um caos de mapas, planos e listagens que o General recebe a notícia delatora de que um tal Eugénie Godard andava a apoiar a Resistência com dinheiro, armas e recrutamento de novos membros. Ergue os olhos e arreganha a boca num sorriso.
Marie cortava uma maçã em pedacinhos quer ia pondo na boca de Maurice, que os mastigava com os seus minúsculos dentes de leite. A cada dentada fingia que ia morder a mão da mãe, e ambos riam em pequenas gargalhadas de felicidade pura ... os almoços de Domingo eram sempre muito agradáveis em casa dos Godard. Havia sempre um prato mais elaborado que de costume e várias sobremesas. Normalmente após a refeição, Marie tocava uma ou duas árias de piano, o que deliciava os os pais e os empregados que a ouviam na cozinha, e depois disto iam todos dar um passeio até à praia pelo que Maurice trazia invariavelmente os bolsos cheios de conchas e pedrinhas que ele ia encontrando pelo areal, as quais achava de uma beleza extraordinária e única.
Mas nesse Domingo não houve sobremesas, árias de piano ou passeios à beira-mar...
Eugénie Godard preparava-se para trinchar o faisão quando se começaram a ouvir carros a entrar pelo caminho de terra batida que atravessava a propriedade.
Portas de carro a bater e gritos em alemão... botas pesadas que atravessam o hall. Reconhecem o grito de uma das empregadas e ouvem o tiro que o silencia. Marie aperta Maurice contra si... ambos tremem de medo. O Sr. Godard levanta-se calmamente da cadeira quando a porta da sala é arrombada com um estrondo. A sra. Godard começa a gritar com o histerismo do desespero. Vários soldados de cabelo louro e olhos azul aço entram de armas em punho e param repentinamente, em sentido, como que esculpidos em mármore.
Ouvem-se mais passos pesados... mas desta vez lentos, calculados.
O General Heydrick entra calmamente, de porte possante e majestoso. Pareceu a Marie mil vezes mais assustador do que o tinham descrito. Era extremamente alto e de peito largo... tinha uma boca e um nariz perfeitos. O seu cabelo era de um louro quase platinado e as faces estavam imaculadamente barbeadas. Constatou sem sombra de dúvida, que aquele era o homem mais bonito que já tinha visto na vida. Todavia quando o olhou nos olhos, soube que aquele corpo servia apenas de invólucro para um ser morto por dentro. Nada havia de humano naquele homem.
O General pergunta a Eugénie, com um tom de voz neutro e despropositadamente calmo, onde guarda as armas com que anda a abastecer os rebeldes.
- Armas? Que armas? Não sei do que fala! Nada sei de rebeldes! Que armas? - tenta manter a compostura mas a voz treme-lhe.
- Nada sabe de armas ou de rebeldes? - o General quase que sorri ao mesmo tempo que aponta a arma à cabeça da sra. Godard, que ainda não tinha parado de gritar e dispara. Um repuxo de sangue salpica o vestido domingueiro de Marie mas ela apenas solta um som rouco e incrédulo.
O pequeno Maurice solta-se da mãe e deita-se abraçando a avó estendida no chão. Chora baixinho, chamando pela avó, pedindo para ela abrir os olhos.
- As armas! Já!- o General Heydrick começa a dar mostras de alguma impaciência.
Eugénie Godard olha para o corpo da esposa caído no chão... tem de fazer com que aquela morte valha. Num acto de coragem volta a repetir que não tem armas em casa... que não está a ajudar a Resistência... que deve haver ali algum engano.
O General olha para o pequeno Maurice e sorri - "Tem a certeza?" diz simplesmente enquanto aponta para a criança e puxa o gatilho.
Marie solta um grito rouco, enquanto o sangue do seu filho lhe atinge a cara. Eugénie olha para o neto sem vida, tombado em cima do peito da avó - "Mas... era uma criança... era apenas uma criança..." balbucia enquanto leva uma mão ao coração. Cambaleia e cai em cima da mesa, com as mãos a agarrar o peito, sem conseguir respirar. Depois de mais uns segundos de agonia, escorrega para o chão, inerte, arrastando atrás de si pratos e talheres.
Heydrick olha para o corpo do velhote no chão e faz cálculos do inconveniente de ele ter morrido sem antes ter revelado onde tinha o depósito de armas.
Marie treme violentamente... o sangue do filho mancha-lhe a cara, o sangue da mãe mancha-lhe o vestido, o pai está morto no chão. Por uns segundos o mundo torna-se num buraco fundo de silêncio sepulcral e o tempo pára. Nesse preciso momento, o Inverno chega à Normandia.
E General contempla longamente aquela jovem mulher de cabelos negros e olhos cor de mel. Dá ordem aos soldados para que percorressem toda a propriedade em busca das armas e fecha a porta da sala... lentamente.
Fica parado, olhando para Marie que ainda não tinha parado de tremer convulsivamente, enquanto da sua garganta apenas saem uns sons roucos de perplexidade e horror, quase desumanos, primitivos.
Ele vai até junto dela e lança-lhe um olhar quase zombeteiro enquanto a agarra pelos ombros. Ela acorda do transe com o toque frio daquelas mãos enormes. Tenta soltar-se, mas ele não deixa. É grande e forte e Marie percebe que não vale a pena gritar por ajuda... todos os que a podiam ajudar estão mortos... todos os que ama estão mortos. Mas ela grita, solta gritos selvagens... não para ser ouvida, mas apenas para si, grita para ter a certeza de que continua viva.
O General Heydrick tenta tapar-lhe a boca, mais por os gritos o estarem a incomodar do que por outra coisa qualquer. Marie morde-lhe uma mão, o que o enfurece. Um estalo voa violentamente e abre-lhe um lábio... o sangue escorre-lhe pelo vestido, juntando-se ao sangue do filho e da mãe.
Marie desiste e a sua mente abandona o corpo enquanto aquele estranho lhe rasga o vestido e a atira para o sofá... ofegante, aperta-lhe os seios irascível, beija-lhe o pescoço e sente o perfume daqueles cabelos negros e brilhantes. Ela não se mexe, não solta um som... o homem pára por um segundo, assegurando-se de que ela não estaria desmaiada. Olha dentro dos seus olhos vazios, fixos no filho morto no chão e então sem hesitação, entra nela. Entra nela violentamente, imparável, impiedoso.
Quando acaba, levanta-se e aponta-lhe descontraidamente a arma à cabeça... mas Marie nem olha para ele... a sua alma ainda não tinha regressado ao corpo. Jamais regressaria. Ele hesita, por um momento, olhando para aquela bela mulher e acaba por guardar a arma.
Marie sente-o partir... a ele e aos outros soldados. Estavam irritados. Não tinham conseguido encontrar armas em lado nenhum. Ouve-os gritar na rua, como se fizessem parte de um sonho e as suas vozes ecoassem debaixo de água.
Rasteja pela sala, com o vestido em farrapos e agacha-se num canto durante dois dias, de mãos em volta das pernas oscilando o corpo para trás e para a frente.
Quando finalmente sai daquele entorpecimento, já não é a Marie. Da mulher que fora, já nada restava, assim como já nada restava do homem bondoso que o Gerenal Heydrick tinha sido um dia.
Percorre os corredores, os quartos, as salas... olhando para uma casa que já não era a sua. Fecha as portas da sala onde estão os corpos da mãe, do pai e do filho que tanto tinha amado. Fecha-a à chave e barrica-a com todos os móveis que consegue arrastar. Fecha todas as janelas e corre todos os cortinados. Vive semanas arrastando-se pela escuridão... comendo os restos que encontra na cozinha e as conservas que encontra na adega. Nunca mais despiu o vestido branco esfarrapado e manchado de sangue. Não vive. Existe apenas.
Nunca mais chorou... porque para chorar é preciso ter um coração vivo, um coração que sinta e palpite... e o dela apenas jazia morto e apodrecido dentro do peito.
Um dia, sentada no chão da adega, com os olhos fixos na escuridão e enquanto ia mastigando pequenos pepinos conservados num pote de vinagre, pousa a mão sobre o ventre e sente uma pequena protuberância que antes não tinha.
O Inverno tinha chegado e partido e Marie não se recordava de ter tido as regras durante todos aqueles meses. Mergulhada na doce demência a que se tinha entregue, todos esses pormenores lhe haviam passado ao lado.
"Grávida!" - grita - "Grávida!! Não! Não, não não! Grávida de um monstro!". A leoa ferida dentro dela, acorda. Ruge e bate com os punhos na barriga, na parede, nas portas, nos barris do vinho... pontapeia tudo o que apanha pela frente num acesso de agonia desesperada. Os cabelos que não eram penteados há meses ganham vida de medusa enraivecida.
No meio do rebuliço, não sabe exactamente em que local bateu, mas uma parede falsa abre-se com um clic. Marie pára ofegante, olhando embasbacada para uma divisão que desconhecia. As armas que os alemães tinham acusado o seu pai de traficar... estavam todas ali. Marie sente um enjoo e vomita os pepinos envinagrados. Todos, tinham morrido todos por causa daquilo! Algo nela acorda... o coração ilumina-se debilmente, como se uma réstia de acendalha que ainda residia dentro dele tivesse sido soprada por uma leve brisa.
Entra naquela pequena divisão bafienta e encontra todo o tipo de armas... nunca tinha manuseado nenhuma, não fazia ideia de como funcionavam. Concentrou-se nas granadas. Essas eram simples de utilizar. E então sorri... sorri o mesmo breve sorriso zombeteiro que lhe tinha lançado o general Heydrick.
Enfia uma dezena de granadas num velho saco de serapilheira e corre pelas escadas acima.
Ouve sons de metralhadoras ao longe... tiros, explosões. Não sabe há quanto tempo aquilo dura, pois não saía adega há mais de uma semana.
Vai até aos aposentos do falecido jardineiro e enfia umas velhas calças rasgadas, uma camisa coçada e umas botas velhas ainda emlameadas. Com uma tesoura enferrujada, corta curtos os longos cabelos emaranhados e enfia na cabeça um chapéu de palha que lhe cobre os olhos.
Abre a porta da entrada pela primeira vez desde que a sua vida lhe havia sido roubada, e vê ao longe, a cair dos céus, pára-quedistas que deixavam de se ver quando chegavam ao solo e se fundiam com o arvoredo.
Era o ataque dos aliados! O pai tinha razão... nada havia de senil nas suas atitudes ou devaneios. Finalmente as tropas libertadoras tinham chegado à Normandia.
Marie volta para dentro, e fica toda a noite acordada, com o saco de granadas junto ao peito... e a pensar.
O ruído das armas não pára um minuto, nem durante a noite, e antes do nascer do sol, Marie,vestida com roupas de homem e sem largar nunca o saco de granadas, corre o mais rápido que pode na direcção da batalha. Encontra corpos de soldados um pouco por todo o lado, mergulhados na densa vegetação da Primavera. Reconhece uniformes americanos, ingleses e canadianos... mas nenhum destes lhe serve. Continua sem parar... agachada, até que tropeça e cai em cima de um corpo de um soldado alemão. Nada restava da cabeça do homem. Faz um sorriso de triunfo e despe-o, vestindo o uniforme em seguida. Toca com os dedos sujos no tronco do homem, usando o sangue para pintar a cara.
Continua sem parar, dirigindo-se à falésia. Já conseguia ouvir os gritos dos soldados de ambas as partes. Gritos de raiva, de surpresa, de dor, de desespero. Engole em seco e continua em frente. Começa a ver os bunkers alemães que protegem as falésias. Não pára nunca...
A sua atenção é captada por os gritos de um soldado ferido a alguns metros de distancia. Corre até ele e reconhece um uniforme alemão manchado de sangue.
- General Heydrick. - diz inquisidoramente, fingindo uma voz grossa com sotaque alemão. O soldado olha para ela... para aqueles olhos emoldurados por uma cara ensanguentada e vira-se para o lado cuspindo sangue.
- General Heydrick!! - Marie grita-lhe e pega-o pelo colarinho sacudindo-o furiosamente. Ele levanta o braço ligeiramente e aponta com o dedo para o terceiro bunker visível na linha da falésia.
- Merci - diz docemente em francês enquanto lhe deposita um beijo na testa.
Corre para o bunker. O som das metralhadoras e das explosões é ensurdecedor. Olha para a praia e vê um mar vermelho de sangue... centenas de corpos boiavam na agua. Os soldados que não morriam no desembarque dos navios, acabavam despedaçados no areal ao pisarem minas anti-pessoal ou presos em arame farpado. Os que conseguiam ultrapassar esses obstáculos tinham ainda de sobreviver ás metralhadoras imparáveis protegidas dentro dos bunkers.
Marie olhou aterrada ao que julgou ser uma verdadeira visão dos infernos.
O seu corpo fica hirto e a tez sombria.
Entra no bunker e vê o General sozinho... metralhando imparável toda a praia. Era demasiado sedento de sangue para ficar nos bastidores a dar ordens, e Marie sabia disso.
- Mein General! - Grita.
Heydrick volta-se para aquele soldado coberto de sangue e mais baixo que o normal com um olhar inquisidor e impaciente. Olha-o nos olhos... e reconhece-a! Aquele olhar... jamais poderia esquecer aquele olhar.
Marie apercebe-se de que ele sabe quem ela é... e sorri. Devagar, tira o casaco do uniforme e depois a camisa. Fica em frente dele, semi-desnuda, de ventre saliente e peitos cheios.
- Regardez... voici votre bebe. - O seu tom de voz é neutro e sem vida... mas os seus olhos sorriem.
O General demora uns segundos a perceber... olha para a barriga dilatada daquela mulher, depois para os seus olhos... depois novamente para a barriga. E então o seu olhar ilumina-se. Um filho! O filho que sempre quis! Não lhe importava que lhe fosse trazido por aquela estranha. Nada lhe importava, apenas o bebé.
Sorri. Sorri com uma felicidade genuína... o General não se lembrava da ultima vez que se tinha sentido feliz.
Marie sorri também enquanto despeja no chão o saco de granadas. Pega numa e ergue-a no ar... calma, sorrindo sempre, parecendo quase divertida.
O General Heydrick apercebe-se então... olha nos olhos da mulher e lê-lhe os pensamentos. Não tem tempo de sentir medo ou pânico. A ultima coisa que vê, é Marie de braços erguidos a puxar a cavilha de uma granada.

sábado, 21 de Março de 2009

Abegayle


Abegayle corria descalça por um campo de margaridas... não porque estivesse apressada em chegar a algum lado, mas apenas porque lhe sabia bem. Leve, sem preocupações, aceitava o sol que lhe acariciava as faces e lhe beijava a boca. Pára, arranca da terra quente um raminho de hortelã e leva-o ao nariz... inspira profundamente e fecha os olhos durante uns momentos, enquanto uma brisa leve faz os seus cabelos negros ganharem vida... Do alto do monte, contempla por momentos o vilarejo que se erguia em baixo e solta um suspiro de tédio.
Continua a correr em direcção a casa. Não tem pai nem mãe à sua espera, apenas um velho casal de caseiros que já lá trabalhavam desde muito antes de ela nascer, três jardineiros e uma empregada quarentona e bem disposta.
Aos vinte e dois anos, ainda não tinha casado. Não por ser feia ou por falta de dote, mas devido ao seu feitio tão peculiar. Por vezes saía de casa de manhã e só voltava à noite quando a fome se tornava insustentável. Os homens queriam uma mulher que os servisse e fosse a mãe dos seus filhos e não uma mulher assim, com espírito de criança rebelde, tola e mal comportada.
Mas Abegayle era feliz mesmo sem homem, principalmente sem homem... pensava ela algumas vezes, não muitas vezes, pois não era dada a este género de devaneios.
Entra pelos portões saltitando e cumprimenta quem encontra com sorrisos travessos.
-Trouxe-te flores, Margareth!! - estende um ramo de margaridas à velha governanta com um sorriso carregado de apreço e ternura.
-Oh menina... descalça outra vez!! - abana a cabeça tentando parecer zangada- Obrigada pelas margaridas... mas com as mais belas flores de Inglaterra a crescer no seu jardim, porque me tráz essas apanhadas nos montes?
-Porque são livres Margareth... são selvagens. Têm outro encanto - pisca-lhe um olho e sorri.
A brisa que lhes trazia o cheiro a bosques frescos e a flores do campo, começa a trazer-lhes um cheiro a queimado... a carne queimada.
Os outros empregados reúnem-se-lhes silenciosos, todos de olhos voltados na direcção da vila.
- Quem foi desta vez? - pergunta de voz neutra e olhar triste, o que nela era uma raridade.
-Mary Atkins... a esposa do pastor. Acusaram-na de ter provocado a morte de todos os rebanhos dos outros pastores, de ter feito apodrecer os milheirais e de ter sido vista numa noite de nevoeiro cerrado, a pairar nua, montada numa vassoura numa clareira dos bosques. Disseram-me ontem, que desde que foi condenada, ninguém na vila consegue beber leite, pois ele azeda antes de chegar à boca. - Margareth diz tudo isto com um tom de voz monocórdico e pesaroso.
-Ás vezes penso que estaríamos todos melhor fora deste país maldito! - diz Thomas, o marido de Margareth - fala baixinho e com uma voz inexpressiva - A Santa Inquisição tomou conta de Essex. Ninguém pode apanhar um raminho de ervas sem se tornar suspeito.
-Pobres almas, pobre Mary... oh Deus. - diz Margareth de voz desfeita.
A menina-mulher solta um grito de entusiasmo, completamente despropositado e pergunta o que é o almoço. A velha governanta dá-lhe um sermão para que se contenha porque o momento é de pesar.
-Oh... pela pobre Mary nada podemos fazer... mais vale então almoçarmos, não lhe parece? Não seja assim. Estou esfomeada! - finge um beicinho e inclina-se sobre a velha anciã, dando-lhe um beijo na face seguido de uma risada.
Corre para dentro de casa, aos saltinhos e pinotes, fazendo lembrar uma cabrita endiabrada.

Todos na pequena vila sabiam que Abegayle era meio tola... após o terrível incidente há quinze anos atrás, a sua capacidade de amadurecer tinha secado. Perdeu o tino e o seu corpo foi crescendo, mas nunca acompanhado da razão.
Os seus pais tinham-se tornado burgueses prósperos ao comercializarem inteligentemente todo o género de produtos, desde tecidos a leite de cabra. Em poucos anos fizeram uma verdadeira fortuna. Quando as pessoas na vila se aperceberam do quanto o seu negócio crescia, consumidos pela inveja, deixaram de frequentar o armazém da família, mas eles imediatamente criaram uma rede de abastecimento pelas vilas vizinhas, crescendo assim mais que nunca.
Quando tinha sete anos a sua mãe foi acusada por uma vizinha de ter sido vista nos bosques a fornicar com o diabo numa noite de lua cheia por livre vontade vendendo assim a sua alma em troca de riquezas. Havia também rumores de que tinha ressuscitado uma criança. A quinta dos Okley's foi revistada e foram encontrados vários ungentos, potes com ervas venenosas e várias bonequinhas feitas de camisas de milho.
A sra. Okley foi acusada de bruxaria em alto grau, de manter relações sexuais com o próprio demo, de ter ressuscitado uma pessoa, algo apenas permitido a um santo e a Deus, e de conduta social perniciosa. Torturada durante meses, negou berrando de desespero as acusações até ao momento em que a amarraram a um poste e lhe acenderam uma pilha de lenha por debaixo dos pés, em plena praça publica e perante o olhar horrorizado da filha e do marido.
A menina foi então também submetida a intensos interrogatórios para se tentar saber se a mãe lhe tinha passado ensinamentos heréticos ou qualquer outro tipo de poderes, pois era óbvio que ela podia perfeitamente ter herdado os genes de bruxa da mãe. Acorrentada numa pequena cela de pedra imunda, totalmente despida, mal alimentada e coberta com os seus próprios excrementos, Abegayle chorava dia e noite. Chorava pela mãe que tinha visto ser consumida pelas chamas à sua frente, chorava pelos abraços quentes de seu pai e chorava principalmente de incompreensão.
É por fim libertada, quando a vizinha que tinha acusado a mãe, ao ser atirada para o leito da morte por tuberculose, num ataque de remorsos confessa que tinha sido tudo invenção sua e pede a Deus o perdão supremo pela sua redenção.
Quando regressa à quinta da família descobre que o seu pai tinha morrido de desgosto e que em casa apenas a esperavam os caseiros e alguns fiéis empregados.
A fortuna arduamente acumulada por seus pais permitem-na viver sem preocupações e manter a bonita quinta e os seus frondosos jardins que eram na verdade, a sua verdadeira paixão.
A partir do dia que regressou ao lar, a menina não voltou a derramar única lágrima, e tornou-se no mais alegre ser da região. Tola, portanto. Todos se habituaram a vê-la correr pela praça, descalça e a cumprimentar alegremente todos por quem passava pelo nome.




Numa certa manhã de calor intenso, um rapaz recém chegado à vila, e à procura de um emprego que lhe desse um tecto e duas malgas de sopa por dia e um tecto para dormir, tenta a sua sorte na quinta dos Okley's.
Margareth estava já a dizer ao moço que não tinham trabalho para ele, quando surge Abegayle a correr ofegante, com uma coroa de rosas na cabeça e com um vestido branco quase translúcido. Parou estática, com os olhos fixos nos do rapaz enquanto o vento lhe empurrava de frente a roupa, fazendo-a colar ao corpo e vincando todas as suas formas de menina-mulher. No seu peito repousava presa por uma corrente de ouro, uma pequena medalha tosca em forma de sol.
Enamoram-se ali, sem aviso, sem terem tempo de tomarem fôlego e sem vergonhas.
- Pode ficar com o trabalho sim. – toda ela é chocolate derretido, toda ela é mel, toda ela arde de desejo.
Margareth sobressalta-se em pânico. – Menina, não! Não temos trabalho para ele! Desculpe moço, mas vai ter de ir embora... não há nada para si aqui.
- Sim! Pode ficar sim! Precisamos de mais um jardineiro Margareth.– pela primeira vez em quinze anos Abegayle usa a sua autoridade de patroa e impõe-se sobre a velha e boa caseira que a tinha tomado como filha. – Não há motivo para receios querida Margareth – diz tentando tranquilizar a velhota.
- Se a menina o diz... – diz ressentida e preocupada – Seja bem vindo então.
- John, o meu nome é John.- diz ele algo envergonhado sem tirar os olhos toldados de ardor, daquela estranha jovem de coroa de rosas na cabeça.
- Venha, eu mostro-lhe a quinta! – segura-o pela mão e, de sorriso aberto, puxa-o atrás de si.
John fica maravilhado com a quinta. Todo o local está imaculadamente jardinado... e
para além dos fantásticos jardins vê uma vedação com cavalos e terras cultivadas. A sua atenção é captada para um pequeno bosque que sobressaia do resto do arvoredo. Era composto de árvores centenárias, gigantescas... muitas delas com raízes expostas como músculos descarnados, e entre as árvores, a vegetação era tão densa que ele acho improvável que alguém conseguisse entrar ali. Achou estranho o facto de numa propriedade tão bem cuidada, tivessem deixado as silvas e as urtigas tomarem conta daquele cantinho em particular que se tinha provavelmente tornado num ninho de cobras.
-Tem de se fazer alguma coisa a respeito daquilo, não lhe parece senhora? - diz ele apontando para o matagal que engolia as árvores.
-Não - diz simplesmente Abegayle com um plácido sorriso.
Duas horas depois, vencidos pelo cansaço e pelo calor do meio da tarde, ela convida-o para lanchar. De faces ruborizadas e entre risadinhas tontas, típicas dos enamorados, conversam durante horas acompanhados de biscoitos de mel e limonada fresca que Margareth lhes ia trazendo sob um olhar de pesada censura. Ela fala-lhe sobre a família. Sobre a morte agonizante da mãe atirada injustamente para os braços da Inquisição quando acusada por uma vizinha invejosa e mesquinha , sobre o seu pai do qual nunca teve oportunidade de se despedir, Deus tenha em paz a sua alma. Falou-lhe do cativeiro a que foi confinada durante semanas e aos banhos de água gelada que lhe davam, alternados com banhos de água a escaldar.
-Mas a sua mãe... se não era bruxa, como ressuscitou uma menina? – John estava verdadeiramente curioso com aquela historia tão tristemente grotesca.
-Ela não ressuscitou menina nenhuma – diz distraidamente- A criança estava apenas inanimada. A minha mãe... – cala-se – Já viu que pôr do sol tão magnífico?? - diz, dando um salto em direcção à janela, contemplando o horizonte com um sorriso rasgado.
Ele olha para ela divertido. Nunca tinha conhecido criatura tão extraordinária.
Os dias vão passando... lentos, enternecidos pelo amor inesperado daquelas duas almas...
Tudo lhes era indiferente. Não se importavam se chovia ou fazia sol, se a égua tinha parido, se as sementeiras precisavam de ser escavadas... viviam um para o outro, no limite que o decoro permitia.
O rapaz constata, durante uma pausa no trabalho, que o pequeno bosque deixado ao abandono é pura e simplesmente intransponível. Não havia forma de passar por entre aquele emaranhado de silvas e arbustos selvagens. Mesmo que o quisesse desbastar, nem saberia por onde começar. Falou sobre isso a Margareth, ao que ela replicou com um sorriso gélido, que o bosque era para ficar assim mesmo. Remata a conversa lançando-lhe um olhar velado.

Por mais duas vezes o cheiro a carne queimada inundou a quinta... e se por um lado John ficava extremamente incomodado e se benzia sem parar durante uma hora seguida, Abegayle por sua vez nem reparava e continuava com os seus saltinhos despreocupados que destruíam canteiros de roseiras e hortênsias e que colocavam Margareth à beira de um ataque de nervos.

Num dos anexos da quinta especialmente preparado para ele, Jonh passava as noites em desassossego na cama sem conseguir dormir, e quando finalmente adormecia, os seus sonhos eram invadidos por imagens de Abegayle a correr em seu encontro com apenas uma túnica translucida sob a pele. Agarrava-o, abraça-o, puxava-o para dentro dela... sem hesitações nem pudores... Acordava em sobressalto, húmido de suor e com as mãos a tremer.
Numa dessas noites de insónia resolve sair do seu quarto e passear um pouco pelo jardim, deixando que a brisa fresca lhe enchesse os pulmões. A claridade da lua cheia e fecunda inundava tudo com a sua hipnotizante luz de prata.
Ouve um som de passos a pisar as ervas secas e tem um sobressalto. Olha na direcção da casa e vê um vulto vestido com uma capa preta com capuz que se dirige para o pequeno bosque impenetrável. Algo na figura o assusta e resolve observar em silencio. Quem quer que fosse, caminhava com passos seguros e apressados. Na mão levava um saco preto de tecido grosso que parecia algo pesado.
Jonh não percebe porque a pessoa se dirige ao bosque como se o fosse trespassar, visto que era nitidamente impossível entrar ali. Mesmo a um palmo das silvas, o busto pára e leva a mão ao pescoço, tirando uma pequena chave presa num fio. A mão branca do desconhecido estende-se e afasta uma pequena área coberta de arbustos... e então, como por artes mágicas, o vulto entra pelo bosque adentro como um fantasma atravessando uma parede. Jonh leva a mão à boca, sufocando um grito de espanto. Não sabe que forças invisíveis lhe fizeram os pés mover-se, mas quando dá por si, já ele próprio se encontra à entrada do pequeno bosque. Apercebe-se que por detrás de vegetação se encontra uma porta de grades de ferro tosca, impossível de encontrar a menos que se soubesse onde procurar. Aterrorizado, mas movido por uma curiosidade irrefreável decide entrar.
Lá dentro, vê uma enorme clareira iluminada pela lua cheia. Aparentemente, o bosque apenas servia para abrigar de forma segura aquele local.
Agacha-se a um canto, protegido pelo tronco de uma árvore e observa o vulto de negro. Fosse quem fosse, movimentava-se com destreza... tinha pegado numa vassoura feita com um emaranhado de ramos atados numa das extremidades e varria a clareira lentamente em movimentos circulares enquanto entoava uma cântico sussurrado. Do saco começa a tirar artefactos estranhos que ele nunca tinha visto. Símbolos esculpidos em madeira, pequenas pedrinhas com gravações,um pequeno caldeirão em ferro, velas de várias cores, uma garrafa de vinho, frasquinhos de ervas e um boneco tosco feito de serapilheira.
Jonh olha abismado tomando aos poucos a consciência de que estava perante actos heréticos avessos ás leis do Senhor. Benze-se repetidamente, completamente em pânico, esperando que a qualquer momento o vulto se voltasse para si. Mas quem quer que fosse, continua abstraído naquele ritual diabólico. Acende várias velas, depois de as untar com azeite e coloca uma mistura de ervas no pequeno caldeirão, pegando-lhes fogo de seguida... ajoelha-se no chão e segura o boneco de serapilheira de encontro ao peito... começa a bambalear-se para trás e para a frente enquanto lhe continuam a sair dos lábios palavras imperceptíveis e ininterruptas. Passados alguns minutos pára e levanta-se. Leva uma das mãos ao peito e desfaz o laço que lhe apertava a capa. Primeiro desliza o capuz, mostrando uns sedosos cabelos pretos e depois a capa cai-lhe aos pés... revelando a nudez integral de uma jovem mulher. Levanta os braços, levando o boneco em direcção aos céus e espeta-lhe um alfinete no coração e pousa-o no chão. Pega num punhal de cabo negro e ergue-o por sua vez no ar... e é então que ainda em transe se vira lentamente.
- Abegayle!! - Jonh não consegue conter o grito de espanto e horror.
Ela abre os olhos, e apanhada de surpresa e deixa cair o punhal no chão, mas sorri-lhe, complacente.
- Jonh... meu querido.
- Cale-se!! Bruxa!! Herege amante do demo!! Sois um ser malvado!! Afastai-vos de mim!!- Jonh chora de desgosto e berra palavras de ódio aquela bruxa traiçoeira. - A sua mãe era bruxa também!! É uma família de bruxas!! Que ardam todas na fogueira!
Abegayle avança para ele calmamente... agora já sem sorrir. Tinha perdido todo o ar de menina tola. Falou com uma voz dura e magoada.
- A minha mãe era bruxa sim... nunca o confessou pensando que de alguma forma me protegia. Deu a sua vida por mim. Ironicamente era inocente de todos os crimes de que foi acusada.
- Não, oh por Deus, não!- o rapaz era personificação da desilusão, confuso e com uma dor crescente no peito que parecia devora-lo vivo. - Que boneco era esse?? Que boneco era esse?
- Matas-me!
- Não Jonh... apenas protejo o nosso amor... - Abegayle sorri-lhe com ternura.
- Afastai-vos de mim! Vou embora! Vou à vila!! Vou contar a todos quem sois!! Ajuda!! Alguém me ajude!!
Ouvem-se passos atraídos pela gritaria... ele vira-se e vê os caseiros e os restantes empregados atrás de si... todos de capas negras que lhes cobrem os pés. Gagueja, em pânico... aterrado. - Todos vós, oh meu Deus, todos vós!!
- Menina, eu avisei-a - Margareth parece algo aborrecida.
O rapaz, enlouquecido pelo desgosto e pelo sentimento de traição, pega no punhal caído no chão e começa a correr em direcção a Abegayle. Ela pega na vassoura e montando-a, ergue-se a dois metros do chão, ficando fora do alcance do rapaz, sempre calma... sempre sorrindo.
- Ser demoníaco! - diz Jonh num sufoco, de boca aberta, olhando petrificado para a amada... julgando já estar a viver dentro de um pesadelo.
Larga a faca no chão e foge aos gritos em direcção da vila.
- Menina... -Margareth lança um olhar inquiridor a Abegayle.
- Deixem-no ir... - diz calmamente enquanto uma lágrima lhe escorre pela face.
- Mas...
- Deixem-no ir! - grita Abegayle com um olhar duro.
Jonh corre o mais rápido que pode... mas tropeça nos próprios pés tantas vezes que demora dez vezes mais a chegar à vila do que seria necessário. Chega à alvorada e começa a bater em todas as portas, aos murros e aos gritos - A Quinta dos Okley's!! São todos bruxos!! Todos! A Quinta dos Okley's! Abegayle é uma bruxa!! Quer matar-me! Todos querem matar-me!! Todos eles!!
A vila vai acordando aos poucos... passos vêm à rua... alvoroço... tochas... forquilhas... gritos de ódio, gritos de ordem, gritos de morte.
Uma pequena multidão dirige-se para a antiga quinta... todos tropeçando pelo caminho inexplicavelmente, demorando assim dez vezes mais o tempo necessário para lá chegar.
Já o sol do meio-dia vai alto no céu quando os gritos chegam aos portões da propriedade.
Arrombam as portas e caminham por todas as divisões procurando os traidores hereges... mas os passos ecoam... tudo está vazio... cada quarto, cada sala, cada armário. Os animais tinham sido libertos e caminhavam livremente pela quinta... apenas os cavalos tinham desaparecido também.

domingo, 1 de Março de 2009

O porquê da Sombra



Pretendo criar aqui um cantinho para os meus contos... mesmo que fique à sombra.
Por não achar que faz muito sentido ver as historias ou pequenos textos que escrevo misturadas com as trivialidades e devaneios do meu dia a dia...
Por achar que ficam melhor aqui, todos juntos...
Os posts abaixo vêm do Gatas em Telhado de Zinco Quente.
Continuo assim no meu telhado, mas agora abrigada à sombra das palavras.
Posto isto... quero agradecer a ele por ter tirado a foto ás minhas tralhas e por a ter editado vezes sem conta até atingir o resultado pretendido.
Quero agradecer à Weee por me ter ajudado aqui com as "cenas". Para trás e prá frente, pra trás e prá frente.
Quero agradecer ao RIP por me ter ajudado a escolher o titulo para o blog.
Quero agradecer à Pi por me ter dito que o nome Contos de Uma Gata Vadia aqui para o blog mais parecia coisa de rameira.
E finalmente, quero agradecer ao Kosh (jaZuze) pela sua infinita paciência de Jó, pois sem ele este blog mais pareceria um acidente nuclear.
A todos vós... obrigado, obrigado, obrigado.
Quantos aos textos antigos aqui em baixo... vou deixar os coments em aberto, caso se dê a situação improvável de alguém os ler e querer opinar.
Posto isto... até ao meu próximo conto...

Vestido de Cetim Branco e Meia de Seda


Photobucket


No salão de chá do hotel ouve-se o som de um carro a chegar. Os olhares voltam-se. Ver um carro é ainda tão raro como pérolas negras. Olham abismados para aquela máquina estranha e barulhenta que só poderia ter sido inventada por um cérebro demente com um pacto com o demo.
O carro faz uma travagem e pára bruscamente ao lado de várias carruagens puxadas a cavalo.
Uma porta abre-se e uma perna de senhora envolta em meia de seda espreita para fora... aos olhares curiosos juntam-se sons incrédulos. Era estranho ver um carro... mas ainda mais estranho era ver uma mulher a conduzir um. Os sons incrédulos ganham nuances de reprovação.
Dirige-se à recepção e pede um quarto. Pergunta onde pode tomar uma bebida. Caminha como uma pantera... elegante, sinuosa, altiva de cabelo curto orgulhoso.
É impossível deixar de reparar nela. As senhoras e meninas sentadas nos banquinhos forrados a veludo lavanda olham indignadas e surpresas para a forasteira que lhes interrompeu o chá, os biscoitos de manteiga e a coscuvilhice de cidade pequena. Basta olhar de relance para o seu vestido de cetim pérola para se perceber que não está a usar espartilho... possivelmente nem está a usar nada, pelo menos é isso que acusam as duas minúsculas protuberâncias na zona dos seios.
Senta-se ao balcão e tira uma cigarrilha da malinha. Novamente sons incrédulos a ganhar nuances de reprovação...
Uma das senhoras sussurra em voz baixa que aquela mulher deve ser uma revolucionária daquelas que se julgam iguais aos homens em tudo. Vestia-se inapropriadamente para aquela hora da tarde e mesmo da noite, pois aquilo não eram trages de mulher decente. Talvez fosse mesmo uma sufragista! Uma rebelde! Como tal, não lhes merecia respeito nem qualquer tipo de atenção. As outras concordam com delicados acenos de cabeça mecânicos e continuam a sorver as infusões de cidreira e camomila.
Ele observa-a de uma ponta do salão. Analisa-a e calcula a probabilidades. Nunca tinha tido uma mulher assim, mas também, nunca tinha visto uma mulher assim. Volta a olhar para uma donzela morena e de ar pudico, escondida atrás de um leque de renda espanhola, que esteve a admirar por longos minutos e decide que esta estranha é uma desafio muito maior, mas também muito mais recompensador. Por mais senhora de si que ela pudesse ser, ainda nenhuma mulher lhe tinha resistido aos encantos. Esta não seria com certeza a primeira.
Dirige-se aquela visão de cetim branco enquanto afaga o bigode e passa um pequeno pente pelo cabelo untado de banha... a experiência é tal que o pequeno pente desaparece no bolso do casaco baratucho tão repentinamente como apareceu.
- A senhora é extremamente bonita, sabia?
Olha-a com um olhar sedutor e confiante... simpático, afável ao mesmo tempo que é apanhado com um choque por aqueles olhos azuis gelo... tão cristalinos que incomodavam.
- Sou? Quão bonita? - lança-lhe um olhar genuinamente inquiridor, falando com uma voz de veludo enquanto exala fumo de cigarrilha por entre uns lábios escarlate.
- Desculpe? ... pergunta ele confuso e meio atrapalhado.
- Quão bonita?
- Hmm... não sei. Muito.
Engole em seco e arrepende-se de não ter escolhido antes a rapariga morena com ares de noviça.
- Pois, não sabe. - sorri ironicamente.
Faz-se silêncio enquanto ela inala mais uma vez.
Vira-se para ele e pergunta se ele é casado. Ele pretende mentir, dizer que não... mas algo nos olhos dela, de um azul de gelo o obrigam a dizer a verdade.
- Sou. E a senhora... é casada?
- Tem dias.
Ela sorri de uma forma afectada, impossível de decifrar.
- Já ouviu falar num senhor chamado Sigmund Freud? - cruza e descruza as pernas, fazendo a com que as meias de seda soltassem faíscas prateadas.
- Não. - Atrapalha-se envergonhado.
- É um neurologista que está a causar bastante sensação pelas suas ideias a respeito do funcionamento da psique humana... sabia?
Ele não sabia. Ele mal conseguia escrever o seu próprio nome... não sabia nada de neurologistas, nem sequer o que era uma psique humana.
- Ele afirma que nós não temos um controle total sobre nossa mente... acredita nisto?
Está desconfortável, o colarinho aperta-o. Sufoca. O caçador torna-se a presa.
- Eu... eu não sei. Acho que cada pessoa faz o que quer... hm...
- Acha mesmo? - inala.
- Hm... sim. Acho que sim. Só faço o que quero, sim.
- Costuma levar muitas mulheres debaixo dos lençóis com este género de abordagens?- diz ela com uma mudança de assunto tão brusca que o deixa atordoado.
Ele encolhe-se... quer responder que é um engano, que ela o está a interpretar mal... Mas novamente aqueles olhos azul gelo... profundos, inquisidores.
- Sim.
- Espera fazer o mesmo comigo? - olhar azul gelo.
Ele fica rubro de vergonha. Engole em seco. Não responde e crava os olhos no chão como se desejasse que um buraco se abrisse e o engolisse de um trago.
- Hm... sim. - a verdade sai-lhe como um vómito incontrolável... como se aquelas palavras estivessem a sair da boca de outra pessoa... quer ir embora dali mas os seus pés não se movem, como se alguém os tivesse pregado ao chão.
- Costumam pagar-lhe? - lança-lhe uma nuvem de fumo para a cara... lentamente, semicerrando os olhos.
- Hm... sim. Sim. Olhe, foi um prazer conhecê-la, mas tenho um compromisso... tenho de ir. - sentia-se cada vez mais um animal encurraldo ... só queria sair dali... fugir para longe.
Ela ignora a falsa desculpa que ele cospe e continua.
- E elas sabem sempre que lhe pagam... ou ás vezes têm uma surpresa? - Divertia-se perante o embaraço e a impotência daquele homem.
- Ás vezes têm uma surpresa. - admite envergonhado.
- Sentia aquela mulher a ler-lhe a alma e a mente... a percorrer todos os seus pensamentos, a tomar conhecimento de todos os seus segredinhos nojentos. A cabeça começa a latejar-lhe mas ele já desistiu de querer ir embora, como se fosse qual fosse o esforço que tentasse fazer para sair dali, ela jamais o permitira. Abandonou-se à vontade daquela estranha de pele branca e olhos azul gelo.
- Eu não costumo fazer caridade, sabe?
- Desculpe? - não entende.
- Caridade... não tenho por hábito fazer caridade. - repete ela com um sorriso tépido enquanto pega nas chaves do quarto e lhe pousa a mão delicadamente numa perna. Está gelada e ele arrepia-se assustado.
Ela levanta-se, com o vestido de cetim pérola, que, apesar de solto lhe marcava todas as formas do corpo, descaradamente, obscenamente...
Começa a afastar-se com o seu andar felino e as chaves do quarto a oscilar desoladamente enfiadas no dedo indicador.
- Siga-me.
E ele seguiu-a.
Charlotte


Once upon a time, in a place far far away... there was a cute little girl... her name was Charlotte... and she had the most beautiful cristal marble...
And it was a purple magical marble...
Everytime she looked at her marble... she'd feel a great happiness overcoming her...
But she would have to be very careful... for everytime she'd look into the marble... she would shrink a little.
And, because of that, she was taking a long time to grow up...
When she was 13 years old... she was only 1.2m tall... and everyone would say: "What a strange girl.... She just doesn't grow..."
Then one day... a great tragedy happened... something so horrible... that was talked about for years to come...
Her parents died, in a strange incident no one was able to explain. They both drowned in a river close to their home... Why they went there... And why they both died, it remains a mistery even today.
And then Charlotte... was alone... without anyone... just her and her magic purple cristal marble.
To escape from her sadness, she started to look more and more into the magical cristal marble... And she begun to shrink more and more... Shorter and shorter... But to her, the happiness that overwhelmed her as she looked was worth it...
After some time little Charlotte was already the size of a lady bug, but she didn't care.
Then one day, the inevitable happened...
"I'll look just one more time" she said... "just one more time"...
And she did, and the marble... moved a little... and crushed her.

And this was the tragic tale... of little Charlotte... and her magic purple cristal marble...

O Engano da Inocência


Olhava pela janela observando o mar, no alto dos seus seis anos, com os braços caídos e de punhos cerrados... lábios entreabertos e com o fascínio típico da idade por tudo o que era desconhecido ou menos familiar.
Era feia a menina. Por mais que a mãe lhe vestisse vestidinhos bordados, lhe atasse fitas de cetim nos cabelos ou lhe colocasse brincos de ouro e pérola, era indiscutível para toda a gente, que Leonor era de facto, uma menina feia. A própria criança possuía já uma certa consciência semi-latente de que era feia.
Tinha a pele macilenta e o cabelo demasiado espesso de um preto oleoso. Os olhos eram cinzentos e inexpressivos, como poços sem fundo, e nas suas mãozitas em forma de pequenas garras desajeitadas, segurava invariavelmente o seu brinquedo favorito, uma boneca de trapos vestida com um vestido vermelho tão berrante que fazia doer a vista.
Na saleta, o sr. Simão lia o pasquim e fumava cachimbo.
- Mais um assassínio! Ouviste Carlota? Mais um assassínio! Não apanham este demónio!
A mulher sobressalta-se e leva as mãos á cabeça num movimento teatral.
- Meus Deus! Mais um? Não leias essas coisas em frente à menina...
- É bom que ela fique a saber como é o mundo! É o que te digo! Chamam-lhe já "O Eclético" por matar sempre de maneira diferente... Desta vez foi uma rapariga de dezanove anos!! Meus Deus! Tão nova ainda.
- "O Eclético"?? Que piada de mau gosto! Meus Deus que horror! Um assassino à solta na provincia e ninguém lhe mete mão! Que horror, que horror! Não me contes essas coisas! Sabes que estou de esperanças... isso ainda faz mal ao bebé.
E ia repetindo baixinho para si mesma, "que horror, que horror".
D. Carlota ficava alterada durante horas sempre que alguém lhe mencionava qualquer tipo de violência... começava a transpirar como se estivesse a comer limões e normalmente acabava de cama com uma tremenda enxaqueca que as criadas tentavam atenuar com compressas mornas e sais. Como estava a pouco tempo de dar à luz o segundo filho que, esperava ela, viesse a ser mais agraciado pela beleza que Leonor, estes ataques davam-se com mais frequência e intensidade que o normal.
Leonor, com a sua boquita de dentes retorcidos perguntou se quando se morria se poderia regressar mais tarde. Os pais respondem que não e proíbem-na de voltar a falar em mortes, que tal como é sabido, não é tema para criança tão pequena.
Algumas semanas depois já se ouvem choros de bebé pela casa... uma linda menina de olhos verdes esmeralda desde o primeiro dia que nasceu. "Vai chamar-se Diana! Diana como a deusa romana!!", proferiu orgulhosamente o pai.
Todas as atenções se voltam para aquele novo ser radioso.
D. Carlota manda acender centenas de velas na Catedral como forma de agradecimento por a bebé ter nascido com aquela beleza tão doce e perfeita.
Leonor... no abismo da sua fealdade e sob a sombra da beleza da irmã, remeteu-se a um canto de esquecimento e foi fechando o coração, tendo como única amiga a boneca de trapos de vestido garrido.
O sr. Simão andava inchado de vaidade com aquela nova criança... mostrava-a a toda a gente com um orgulho transbordante que se realçava em cada palavra. "Que linda que é!! Já viu a minha filha?!? Que linda que é!"
Leonor foi esquecida. Já ninguém se lembrava de lhe atar fitas de cetim nos cabelos, ou até de lhe fazer roupas e sapatos novos. Andava pela casa com vestidos apertados e de cabelos amaranhados, sufocada em sofrimento, rancor e tristeza. Passava tardes inteiras passeando à beira das escarpas que coroavam toda aquela zona costeira... hipnotizada por aquela altura fatal e pelas ondas violentas.
Um dia, aproveitando um dos raros momentos em que Diana é deixada sózinha, entra no quarto da irmã e fica a contemplá-la no berço enquanto dormia. Os seus olhos estão vazios suportando uma expressão indecifrável. Pega na pequena boneca de trapos e enquanto uma lágrima lhe desliza pela face, coloca-a no berço entre a mantinha rendada. Fica ali assim, em pé, em agonia, contemplando os caracóis dourados da menina.
Na manhã seguinte a casa acorda em alvoroço. Ouvem-se gritos e correrias. O berço está vazio e ninguém sabe da bebé!
D. Carlota grita entre ataques de desfalecimento e o marido, completamente descontrolado berra com toda a gente, acabando mesmo por dar um estalo à ama da menina que era suposto nunca a perder de vista. "É uma bebé senhor. Não anda... não pode ter ido a lado nenhum. Alguém a levou durante a noite... eu estava a dormir, não ouvi nada. Oh Deus!", a ama desfazia-se em desculpas. Atónita, desesperada... não entendia.
Pela primeira vez em meses, o sr. Simão repara na filha mais velha, "A tua irmã Leonor?? Viste a tua irmã? gritos, "Viste a tua irmã Leonor?". Ela diz que não... que não sabe... que não viu e baixa a cabeça. Um sorriso!! Terá visto um sorriso?? O sr. Simão fica petrificado... terá Leonor sorrido? Pega na menina começa a abaná-la violentamente. "A tua irmã?? Tu viste-a??" ... ela repete que não... que não a viu e começa a chorar.
D. Carlota arranca-a das mãos do marido. "Deixa-a, coitadinha!! Não vês que é apenas uma menina? Como poderia ter levado a bebé?!? Deixa-a!"
Leonor é mandada para o quarto... segue cabisbaixa, de braços caídos. Olha por cima dos ombros como se receasse estar a ser seguida, e nesse momento o sr. Simão julgou ver novamente aquele sorriso. Recusa a ideia... o pânico estava a levá-lo a ver coisas... foi impressão, com certeza. Não, Leonor não poderia ter sorrido. Como poderia sorrir perante o desaparecimento da pequenina? Não, não... delirava. As crianças não têm uma maldade assim tão diabólica.
Começam buscas e toda a propriedade é revistada palmo a palmo... não há sinais da bebé. Vão até à linha das escarpas e continuam numa correria urgente... uma multidão de gente apreensiva e em silencio percorre toda a área.
Ouve-se um grito gelado.
- Ali!! Ali em baixo!!! Naquela pequena enseada! O que é aquilo?
Todos olham petrificados na direcção indicada. Lá em baixo, pareciam caídas duas bonecas no areal. Uma mal se via, tal não era a altura, mas a segunda realçava-se devido ao seu vestido vermelho garrido.
Cai a noite derrepente, como que toda a escuridão do universo tivesse esperado aquele momento para se afundar sobre a terra.
O sr. Simão gela perante a visão surreal... lá em baixo, naquela língua de areia está Diana com a boneca de Leonor ao lado.
Ferve de raiva, ferve de dor, de angustia e de horror. Leonor matou a irmã... levou-a até ali a atirou-a para o abismo. Agora entende que os sorrisos eram reais e não uma alucinação.
Várias pessoas descem até à pequena enseada e trazem ao sr. Simão, no alto da escarpa e hirto de terror, o corpinho da bebé sem vida. Olha para o rosto de Diana... os anéis dos seus cabelos estão molhados pela maresia e os seus lábios estão da cor do azul da morte.
Caminham de volta à casa, o pai, de coração agora morto, na dianteira, leva a menina nos braços e nos olhos o mais puro dos ódios.
D. Carlota vê pela a pequena multidão chegar... vê o marido com a menina sem vida nos braços e nesse preciso momento, enlouquece.
O sr. Simão ordena num berro que todos se vão embora... vozes contestam, "mas vocês não podem ficar sózinhos neste momento... ouça, seja razoável..."
-Saiam!!
Grita num úivo saido dos infernos.
Avança para o quarto de Leonor, cego pela raiva e num pontapé deita a porta ao chão. "Matáste a tua irmã! Como pudeste?? Era apenas uma bebé Leonor!! Matáste a tua irmã!"... Leonor grita que não, que não foi ela, que não sabe de nada... "Matáste-a! Encontramos a tua boneca ao lado dela! Matáste-a!"... avança para a menina agora mais feia que nunca... com o rosto contorcido de horror... um animal encurralado, "Papá, não!"
Atira-a para a cama e sufoca-a com uma almofada até o pequeno corpo deixar de se contorcer.
Fica um pouco a olhar para a filha morta, aliviado, vingado, em paz.
Lá em baixo, ouve-se a porta da entrada abrir num estrondo. Ouve a voz de um dos empregados a berrar desesperado, "Sr. Simão!!! Sr. Simão!!! Não imagina!! Oh Deus... Sr. Simão!!! Apanharam o assassíno! Apanharam-no! Ele confessou ter assaltado esta casa durante a noite e ter raptado uma bebé que depois atirou de uma escarpa!! Oh Sr. Simão!!"

Atalhando a vida...




Sente-se sufocar pelo colarinho. Ajeita-o um pouco tentando em vão diminuir o desconforto. As mãos e os joelhos tremem-lhe descontroladamente fazendo lembrar os movimentos de uma marioneta, que na sua qualidade de marioneta, não tem vontade própria.
A secretária fala numa voz austera:
- Já pode entrar.
Levanta-se da poltrona pensando que deve ser esta a sensação de uma vitima em direcção ao cadafalso.
O patrão, no seu impecável fato de linho egípcio, olha-o como um touro prestes a fazer uma investida... o facto de estar a fazer um esforço brutal para não se descontrolar só o tornava ainda mais assustador.
- A situação é muito grave!
Rosna o patrão.
- Eu sei... peço-lhe imensa desculpa. Jamais se voltará a repetir. Fugiu-me ao controle...
- Os nossos clientes jamais poderão saber disto! Seria um escândalo para o Banco. A confiança na instituição seria irremediavelmente abalada! Onde é que você estava com a cabeça?
Aqui já toda a compostura calculada o tinha abandonado, berrando agora em uivos que ressoavam por todo o gabinete.
- Eu... eu lamento. É que tenho tanta divida de momento e a bebé nasceu com aquele problema, como sabe... precisa de tratamentos constantes... e a minha mulher está novamente grávida... eu... Não se voltará a repetir.
- Milhares!!! Milhares perdidos ao jogo! Milhares que não eram seus! Milhares que o Banco vai ter de repor!! Como é que vocês pode ter feito uma coisa destas? Depositei tanta confiança em si!
- Eu sei... eu... não se voltará a repetir.
- Pare de repetir isso!! Seu estúpido!! Saiu-me cá uma besta!! Só estou aqui a falar consigo porque tenho o seu sogro em grande consideração. Se não fosse por ele, não só o teria despedido imediatamente como teria também chamado a policia!
- Eu... não se voltará a...
- Como é que um homem que ocupa um cargo tão importante na sociedade e que toda a gente tem em tão alta conta pode ter como um genro um paspalho como o senhor?!?
- Não imagina como estou arrependido... a minha situação é desesperada! Eu sempre julguei que...
- Cale-se!!! Cale-se e nunca mais me apareça à frente!! Imbecil!!!
Sai de cabeça baixa, derrotado. O chão vai-lhe fugindo dos pés enquanto caminha. O peso do mundo sobe os seus ombros.
Entra no carro... apoderado pela angustia, pelo desespero, pelo medo de contar à mulher que não têm nada... que vão perder a casa e o carro e que tem mais dividas de jogo do que as que alguma vez poderá pagar.
A ideia em si é-lhe insuportável... o terror sufoca-o e arrasta-o para o fundo de um oceano negro e pegajoso.
Vai passando pelas ruas daquela cidade cinzenta e fria.
Começa a cair uma chuva miudinha que acaricia o pára-brisas.
Olhares de estranhos...
Olhares acusadores...
Dedos apontados...
Delira empapado em suor.
Chega aos limites da cidade e continua por estradas secundárias que não conhece... vai alienado e sem destino tentando desesperadamente perder-se.
Já não há pessoas, ou casas ou outros carros... Pára numa berma e contempla um campo em pousio. Sente uma enorme paz ao olhar para ele.
Sai do carro e caminha em direcção aos campos sem fim... avança sentindo uma enorme paz que o invade a cada passo que dá.
A noite começa a cair... sem pressas.
Continua calmo e decidido.
Nunca mais ninguém o vê.

Da Alma...



Entra na taberna de mão dada com o filho de dois anos. Segue, segura de si e indiferente aos olhares lascivos dos poucos clientes que se embebedavam pelas mesas ainda antes da hora do almoço. Caminha altiva apesar de estar apenas calçada com uns tamancos de madeira tosca e um velho vestido de xadrez surrado. Quem a visse iria pensar que se tratava de uma rainha caída em desgraça, desprovida de bens, mas não do seu orgulho.
O frio quase não deixa respirar… aperta o cachecol ao menino e pede ao taberneiro dois caramelos. Não pode comprar mais. Pensa na malga de leite que não tomou de manhã para poder comprar a guloseima ao filho e sorri. Tem fome, mas ela afasta-a com o prazer de desgrenhar o cabelo ao menino com uma pequena risada. Pensa no marido que partiu há dois meses para as minas à procura de encontrar sustento para a família e sente um aperto de saudade.
Está assim, encostada ao balcão e perdida nos seus pensamentos quando alguém entra na taberna. O forasteiro traz com ele o frio da rua, a neve empurrada por um vento descontrolado e a solidão das cordilheiras geladas e de escalada impossível que rodeiam toda a povoação.
Tem um gorro de lã na cabeça, um casacão forrado com pele de marta e umas botas de cabedal feitas por medida, encomendadas no melhor sapateiro da capital.
O desconhecido pousa uma mala com os utensílios de trabalho. Esquadros, fitas métricas e mapas que está a usar para cartografar a região. O seu olhar fixa-se magnetizado na silhueta da mulher.

Ela sente-o. Sente o sangue dele a pulsar nas suas próprias veias. Vira-se tão lentamente que parece que nem se chega a mover. Os olhos dos dois encontram-se, perdidos e incrédulos. Ambos se sentem como que fulminados por um raio.
Algo os trespassa… primeiro a certeza de já se terem visto antes, tal não é a familiaridade das formas. Mas ambos rejeitam essa hipótese passado uns segundos. Nunca se viram, mas conhecem-se. Conhecem-se desde o início dos tempos… almas antigas que vagueiam procurando encontrar-se uma à outra.
Ambos os corações batem velozes e confusos.
Ela pega apressada no filho, com os joelhos a tremerem-lhe e os olhos marejados de lágrimas e corre para o exterior de encontro à neve que os fustiga, impiedosa e cruel. A criança caminha aos tropeções tentando acompanhar a mãe. Volta-se para o filho subitamente: “Olha amor, a mãe vai levar-te a casa da avó, está bem?”. A criança acena alegremente. Em casa da avó há sempre uma lareira acesa e pão. Muitas vezes está duro, mas é pão, e pão é sempre bom… e ás vezes, muito raramente, a avó até tem mel!
Ele volta a pegar na mala e sai atrás dela, não sabe porque a segue, apenas que tem de a seguir, e que tem de a ter, pois ela é dele. Gira com o polegar a aliança de casamento, e pensa na esposa e nas duas filhas que ficaram na capital à espera do seu regresso.
Segue-a por ruas sinuosas e vê-a chegar a uma velha casa de madeira e a bater uma porta que se abre. Empurra a criança suavemente para dentro, dando uma explicação inaudível á figura que não chega a sair à rua e prossegue caminho.
Sempre sem parar, volta-se ligeiramente, consciente de que ele a segue e o seu corpo começa a aquecer de tal forma que parece acometido por ataques de febre… e ali, a mais de trinta passos de distância, sente que o dele também fervilha.
Entra numa praça larga, deserta e morta pelo Inverno… canteiros desnudes e uma fonte de água congelada. Pára a meio e volta-se para trás, decidida e corajosa. Ele abranda o passo mas continua a caminhar na direcção dela. Os seus olhares fixam-se em concordância… os seus corpos ardem com um querer maior que qualquer força ou que qualquer consciência.
Quando chega por fim ao pé dela, ficam parados respirando profundamente, sem conseguirem desviar o olhar um do outro… os seus corpos de tão quentes, aquecem o resto da praça, e da pequena fonte de granito começa a brotar uma água cristalina, e em todas as varandas nascem subitamente pequenas flores nos vasos que só as esperavam na Primavera.
Não trocam uma palavra, nem precisam de o fazer. Cada um conhece a essência do outro até ao mais profundo do seu ser.
Ela recomeça a caminhada e ele segue-a uns passos atrás… Pensa no marido longe e no filho que acabou de deixar em casa da mãe. Eles fazem parte desta sua vida, ama-os e daria a vida por eles, mas este homem que a segue está muito acima de qualquer coisa terrena. Ele é ela, ela é ele… ambos são o mesmo… completam-se. O sentimento que os une já existe há mais tempo que o próprio conceito de tempo.
Chega a sua casa, uma modesta cabana de janelas repletas de frinchas e por onde o vento entra implacável… ele segue-a e entra na divisão enquanto ela lhe segura a porta, e deixa cair a sua mala no chão pesadamente.
Ele agarra-a por trás violentamente, por aquela cintura frágil que treme nervosamente com a antecipação… beija-lhe o pescoço enquanto afasta as madeixas cabelo negro que cheira a flores, ternura e fumo. Ela vira-se para ele, com urgência, com desespero… mergulha naquele peito quente e tão familiar… ambos surpresos consigo próprios, mas resignados, pois ambos sabem que já se encontraram assim em muitas outras reencarnações, por vezes por breves instantes, por vezes por vidas inteiras.
Amam-se incansáveis, deitados no chão de madeira carunchosa. Amam-se sempre sem trocar uma única palavra. Amam-se com a fatalidade da separação terrena. Choram lágrimas de alegria misturadas com lágrimas de tristeza, numa sinfonia agridoce e caótica enquanto se abraçam, se apertam, se acarinham…
Lá fora o vento parou... e a neve cobre tudo placidamente como uma cúmplice expectadora.
Despedem-se por fim, com os lábios dormentes de tanto beijo, sem palavras nem lamentos pois sabem que as suas almas se voltarão a reencontrar na próxima vida e em todas as outras… até o fim dos tempos.

Beleza


Nasceu durante um eclipse lunar. No preciso momento em que a noite ficou mais escura que nunca, ela sai de dentro de sua mãe.
Dão-lhe a graça de Constança. Desde a mais tenra idade que se adivinhava que Constança ia ser possuidora de uma beleza extraordinária e por volta dos doze anos, esse facto tornou-se inegável. Era a mais nova de três irmãs e sem dúvida a mais bela. As suas irmãs no entanto não lhe tinham qualquer inveja, antes pelo contrário e ficavam consternadas na sua presença, como se aquela beleza as desconcertasse.
Os próprios pais não sabiam porquê, mas a beleza da filha em nada os aprazia. Muitas vezes surpreendiam-se a si próprios a olhá-la como se fosse possuidora de uma qualquer malformação. Envergonhavam-se de tais sentimentos, mas não conseguiam evitá-los.
O próprio padre da paróquia, durante um dos sumptuosos almoços de domingo que a família costumava dar, observou “Uma beleza assim é uma maldição!", o pai de Constança é atravessado por um calafrio e a mãe benze-se, desconcertada.
Constança era inteligente e perspicaz, destacava-se das irmãs não só pela beleza mas também pelos imensos talentos que possuía. Tocava piano e harpa de forma excepcional, falava fluentemente três línguas, sabia bordar briosamente, cozinhava pratos deliciosos e pintava quadros a óleo de paisagens magníficas e improváveis que rebuscava na sua imaginação através de descrições que lia em livros.
Era delicada de maneiras e o seu carácter era firme mas dócil.
Normalmente, pessoas assim tão belas e talentosas estão rodeadas por uma aura susceptível de atrair os outros. Estranhamente, isso não sucedia com Constança. Não conseguia alcançar os outros, grande parte devido ao facto de outros não quererem ser alcançados por ela. Vivia sozinha pelos cantos, mendigando atenção e carinho, porém, nem o cãozinho de companhia da família queria nada com ela.
Corriam pela cidade rumores de que ela levitava quando queria. Havia quem dissesse que ela, por debaixo das suas roupas rendadas tinha a pele translúcida, que caminhava nua e em transe pelos bosques nas noites de lua cheia e que não comia nunca, pois o seu corpo não necessitava de nenhum alimento terreno.
Desta forma, Constança sentia-se só, apesar de viver rodeada por muita gente, angustiada pelo desejo de calor humano, de um toque, ou de um sorriso que não fosse de misericórdia mas sim de afecto. Ela era de facto, aprisionada na sua beleza, o mais infeliz dos seres.
Quando chegou a idade de casar, ela alegrou-se. Não importava com quem a casavam, ela só queria alguém que a quisesse a ela também. Mas todos os supostos pretendentes que a conheciam durante os bailes e festas que os pais davam para o efeito, ficavam abismados com a sua beleza e acabavam por desviar os olhos como se queimasse. Saíam sempre apressados, balbuciantes, envergonhados.
Constança sente o seu peito a esmaga-la cada vez mais de dia para dia. Não aguenta a solidão que parecia ser água que lhe entra pela boca e pelo nariz, afogando-a, matando-a, levando-a para um fundo escuro e frio com uma âncora atada á cintura.
Um dia o mais absoluto inesperado aconteceu. Ao sair da missa de Domingo de braço dado com o pai, esbarra num rapaz que nunca tinha visto antes. Vinha a comer uma maçã distraído e não tinha reparado nela. Ela olha-o com um ar inquiridor, mas ele apenas sorri, com o sorriso mais aberto e franco que ela já tinha visto na vida. Ele leva a mão ao bolso e puxa de outra maçã: “Quer uma?”, pergunta ele com um ar atrevido. Constança sente um calor subir-lhe o corpo e as suas faces incendeiam-se como duas tochas. Estava apaixonada.
Por qualquer motivo que ela não entendia, aquele rapaz não parecia perturbar-se com a sua beleza. Não a evitou, nem fugiu… pela primeira vez, Constança sentia-se uma rapariga normal.
O pai, abismado e com o coração cheio de esperança, tratou de saber tudo a respeito do rapaz na expectativa de casar finalmente a filha.
Descobriu assim que o rapaz era um simples pastor que se tinha mudado para uma das aldeias dos arredores. Não se deixou melindrar pelas suas humildes origens e tratou de fazer tudo ao seu alcance para facilitar o namoro.
Constança e o pastor começaram a encontrar-se religiosamente duas vezes por semana. Ela andava maravilhada, embriagada pelo carinho e atenção daquele rapaz. A sua maneira de ser, desprendida e pura arrebataram-na por completo. Ele por seu lado, amava-a docilmente pela sua inteligência e moral, apesar de não a achar muito bonita.
O casamento é marcado para Dezembro desse ano. Os noivos rejubilam. E quando Constança afirma que pretende viver numa casa nos bosques para que possa estar sempre perto do marido, a sua família e toda a cidade rejubilam também, felizes por se livrarem daquela anormalidade em forma de beleza.
Dois dias antes do casamento, enquanto guardava as ovelhas, o pastor cai de uma pequena ravina e morre.
A notícia chega a Constança algumas horas mais tarde. Fica atordoada, sem acreditar. Grita, amaldiçoa, faz os punhos em sangue de tanto bater com eles na parede. Nessa noite, deita-se com o olhar vazio e com um buraco sem fundo no sítio do coração.
Na manhã seguinte não acorda. Encontram-na deitada, com o seu vestido de noiva, de sorriso etéreo e pele branca como a cal. Quem entrava no quarto era obrigado a desviar o olhar. A beleza de Constança tinha adquirido novos contornos, tinha-se agudizado tornando-se quase agressiva e obscena para quem olhava.
A cidade respirou de alívio assim que a primeira pazada de terra é atirada sobre o caixão… porque uma beleza assim era uma aberração da natureza… porque uma beleza assim desafiava o equilíbrio do universo.

Requiem Contemplativo




Percorro as ruas ao sabor do vento frio de Inverno... um vento capaz de congelar pensamentos e corações...

Olho em redor... vejo pessoas caminhando nos passeios... tantas pessoas... cada uma fechada no seu próprio pequeno universo...
Pergunto-me no que estarão a pensar... não parecem estar a pensar em nada. Olhares vazios, sem fundo...
O vento frio levanta-se mais forte castigando os caracóis do meu cabelo... obriga-me a semicerrar os olhos e a alma.
Continuo a caminhar sem destino... vagamente.
Continuo a olhar para as pessoas... vagamente.
Imagino a morte de cada uma delas... Tudo é tão efémero... tão passageiro...
Daqui a cem anos nenhuma delas estará viva. Será que sabem isso?? Oh, eu sei que sabem! Mas será que têm ESSA consciencia? Passam-me diante dos olhos centenas de funerais, milhares de lágrimas...
Eu... eu daqui a cem anos não estarei viva.
Daqui a cem anos já ninguem se lembrará de que eu alguma vez existi...

Subjugação


Logo depois de casar, largou o emprego para se dedicar inteiramente á casa e ao marido. Vivia para lhe agradar, para o servir, fazendo tudo para se tornar indispensável.
Obcecada pela perfeição e por aquele amor, preparava cada refeição como se fosse um banquete, cada camisa que passava era tratada como uma escultura de arte, lavava, esfregava, perfumava, floria… A casa estava sempre num brio tal, que parecia que ninguém lá habitava.
O marido era incólume a toda esta dedicação e afecto. Olhava para tudo friamente, nunca satisfeito com nada e sem lhe dirigir em vez alguma uma simples palavra de apreço. Para ele as camisas tinham sempre as golas mal passadas, as calças tinham sempre os vincos tortos, as gavetas estavam sempre em desordem, a comida estava sempre salgada ou insonsa e os bolos ficavam sempre muito enqueijados ou então muito secos.
Ela encolhia-se perante a dureza dos seus comentários… e o seu coração foi mirrando ao mesmo tempo que os anos foram passando.
O quadragésimo aniversário do marido estava a chegar e ela empenhou-se em tornar a ocasião mais especial que nunca.
Comprou um lindo vestido de seda vermelho para a ocasião e passou duas horas no cabeleireiro a dar uma nova vida aos seus longos cabelos dourados.
Preparou o prato favorito dele, Cordeiro no Forno, medindo cada condimento á milésima de grama. Fez um bolo de quatro camadas com um talento tal, que parecia feito por um pasteleiro profissional. Pôs uma toalha branca bordada na mesa com um jarro de flores ao centro e castiçais com velas em cada canto. Com as economias de quase um ano, comprou um magnífico relógio para oferecer ao marido, que segundo as palavras do próprio relojoeiro, se travava de “uma maravilha da tecnologia”.
Tinha demorado todo o dia a preparar aquele jantar para que ficasse perfeito… está exausta mas feliz, contente com o resultado obtido.
Sente o marido chegar e olha-se mais uma vez ao espelho… gosta do que vê e apressa-se a ir ao seu encontro.
Olha-o com uma devoção de cachorrinho assim que ele entra na sala. “Parabéns amor!” e estica-se para lhe dar um beijo que ele aceita distraído ao mesmo tempo que pendura o casaco. Olha para ela, “Que roupa é essa? Sabes que o vermelho te faz mais gorda!”. Ela crava os olhos no chão, envergonhada. Talvez faça. Sim, é claro que o vermelho a faz mais gorda. Que tonta foi em ter escolhido um vestido daquela cor.
Ela entrega-lhe o embrulho com um olhar tímido mas ao mesmo tempo seguro e com a alegria imensa da certeza de que ele vai adorar o presente. Ele desembrulha-o desajeitadamente: “Ah, um relógio! Sabes que já tenho três. Não havia qualquer necessidade de me teres comprado outro.” Ela pede desculpa e sorri nervosamente, tentando disfarçar a desilusão.
“Vem jantar. Fiz o teu prato favorito! Tens fome?”, ele responde que nem por isso… lanchou tarde…
Senta-se á mesa algo entediado. “Com estas velas aqui não consigo ver a televisão como deve de ser. Tens cada ideia mais disparatada! Tira-as da mesa se faz favor” Ela tira. “Estas flores são muito perfumadas! Mas que chatice! Não vou conseguir comer com este cheiro! Tira-as daqui se faz favor”. Ela tira.
Olha de relance para o bolo de aniversário pousado em cima do balcão da cozinha. “Aquilo é cobertura de morango? Sabes que detesto morango!”. Ela engole em seco, afogando as lágrimas, “Eu raspo a cobertura então” diz com um esgar de dor disfarçado de sorriso. Não sabia que ele não gostava de morangos, aliás, podia jurar que já o tinha visto comê-los por diversas vezes. Os músculos retesam-se e o olhar fica sombrio.
Pousa a travessa de cordeiro na mesa, da qual emana um cheiro delicioso e serve-o. Ele leva uma garfada á boca: “Está salgado!”. Nesse momento algo se quebra dentro dela, como uma corda que é esticada ao limite… essa frase fica a ressoar-lhe dentro da cabeça… “está salgado… está salgado… “
Levanta-se, como que em estado de hipnose, abre a gaveta dos talheres e pega na faca de trinchar. “Olha para mim!”, ordena ao marido. Ele volta-se, surpreendido pelo tom autoritário da voz dela. Ela levanta a faca no ar e com uma precisão cirúrgica crava-a na jugular. O sangue jorra em repuxo e ela cai, ficando deitada de costas enquanto o seu sangue quente se espalha sobre os imaculados azulejos brancos.
O marido fica sentado á mesa, olhando-a em silêncio enquanto a vida da mulher se apaga. Não move um músculo, apenas observa placidamente.
Volta-se para a comida e leva mais uma garfada á boca. Surpreende-se. Está de facto uma delícia! Come avidamente e repete duas vezes. Levanta-se da mesa e dá uma passada larga por cima do corpo da mulher, tentando evitar a cada vez maior mancha de sangue e dirige-se ao bolo. Come uma fatia. Deliciado, come outra.
Vai até ao quarto para mudar de roupa. Não quer receber a polícia com as roupas no típico desalinho do fim de um dia de trabalho. De todas as calças e camisas alinhadas na perfeição, escolhe duas peças, ”Sim sim… impecável… hm hm”
Volta para a cozinha e olha mais uma vez de relance para o corpo sem vida da mulher naquele charco de sangue.
Pega no telefone e disca um número, “Estou, D. Lurdes? Ouça, não vai acreditar no que a sua filha acabou de fazer…”

O Jardim


O Dr. Afonso vivia desde sempre naquela pequena mas nobre cidade, escondida por trás de montes inóspitos e esquecida do resto do mundo. Todos os habitantes viviam segundo as mais rígidas regras de moral e decoro e qualquer escândalo pessoal que pingasse para o conhecimento do publico consternava toda a população, enquanto que, paradoxalmente, fazia as delícias de qualquer lanche da tarde, em que grupos de amigas se reuniam para comerem pastelinhos com creme entre chávenas de chá perfumado e gargalhadinhas maliciosas.
Quatro anos antes, o Dr. Afonso sobrevivera ao escândalo social e ao repudio geral quando a sua esposa Violeta o abandonara levando consigo ambos os filhos do casal. Rosa de cinco anos e Jacinto de dois. Desapareceram os três da noite para o dia e ninguém duvidava que D. Violeta tinha fugido para o estrangeiro com um qualquer amante secreto.
O facto de ser de famílias nobres e antiquíssimas garantia ao Dr. Afonso o status de partido muito requisitado pelas mais belas donzelas da cidade. Tanto não fosse pelas suas origens, a sua enorme fortuna teria bastado.
No entanto ele parecia muito pouco ou nada interessado em voltar a casar. Isolou-se no seu palacete secular de onde recusava amavelmente os convites para eventos sociais e de onde só saía para atender pacientes no seu consultório no centro da cidade. Nada dava mais prazer a este homem que sentar-se num dos varandins da casa enquanto contemplava o seu magnífico e magistral jardim que florescia de forma frondosa e inexplicável e em que as espécies de flores e plantas eram tantas que se ficava inebriado só de olhar.
Tinha enfrentado o desaparecimento da mulher com uma altivez e uma compostura surpreendentes e todos lamentavam a sorte daquele homem de bondoso, que trabalhava apesar de não precisar de o fazer e que a maioria dos pacientes que tinha eram pessoas de parcas posses ás quais não cobrava consulta, salvando assim muitas vidas naqueles tempos em que as doenças fomentavam e as hipóteses de cura eram escassas.
Certo dia chega á cidade uma nova professora primária, a D. Íris, com sua filha Margarida de quatro anos. Ainda não tinha trinta anos e já era viúva, tendo ficado nessa condição quando o marido partiu para o Brasil na esperança de voltar com fortuna, mas que morreu no próprio dia em que chegou ao país, trespassado pela seta de um índio foragido e selvagem.
De uma beleza simples mas extraordinária, a D. Íris era de gostos requintados mas sem exigências e dona de uma personalidade dócil e de grande sentido moral.
O Dr. Afonso reparou imediatamente nela, e ela, por sua vez, reparou imediatamente no bondoso médico.
Eram de personalidades compatíveis e de gostos similares. Assim que se conheceram tornaram-se inseparáveis. Três meses após se terem visto pela primeira vez, ficaram noivos e um ano depois estavam casados. No dia do casamento o que mais se comentava entre sussuros era o facto do quanto D. Íris era parecida com a desaparecida D. Violeta. A pequena Margarida, coroada de flores saltitava feliz á volta da mãe, com uma adoração que enternecia os convidados.
D. Íris adorava o novo marido. Adorava a sua nova casa com o seu fértil jardim e em que ás vezes se perdia por entre os jacintos e as rosas que cresciam por todo o lado... e adorava toda a rotina daquele antigo palacete mantido com regras rígidas por uma pequeno batalhão de empregados silenciosos e corteses.
Vivia feliz com a sua filha que tinha encontrado no Dr. Afonso um novo pai e não se tinha arrependido em qualquer momento por ter dado aquele passo na vida.
Várias vezes surpreendia o marido sentado á janela a contemplar o jardim, numa enorme cadeira-de-baloiço e de ar ausente, como que hipnotizado por algo. Assustava-se com aqueles olhos sem vida e depressa o trazia á realidade abanando-o com violência até ele sair do transe, "Um dia destes não voltas!!" dizia-lhe ela nervosamente. Ele descansava-a puxando-a para si e dando-lhe um beijo terno na testa.
Certo dia, andava D. Íris a explorar a casa, quando se deparou com uma porta que não conseguia abrir e da qual ninguém parecia ter chave. Considerava aquela casa como sua também e o facto de existir um quarto em que não conseguia entrar começou a consumi-la por dentro. Pediu a um dos empregados para chamar um serralheiro, mas este recusou-se, defendendo-se dizendo que só o faria com ordens do patrão e que aquele quarto, até ver, era interdito a todos por ordem do próprio Dr. Afonso, e que o melhor seria que se ela mesma lhe pedisse a chave.
Ela abordou o marido ao jantar a respeito do assunto, mas só obteve da parte dele um olhar velado e de quase ódio, que ela nunca tinha visto antes. Estremeceu um pouco e foi-se sentido cada vez mais consternada durante todo o jantar, pois o marido remeteu-se a um silencio frio e insondável.
Apartir daquele dia o marido mudou radicalmente de atitude, tornado-se distante e ácido e a entrar mais vezes do que nunca naquele transe hipnótico da sua cadeira-de-baloiço.
Refugiou-se na pequena Margarida e passava todos os minutos que podia com aquela criança, pequenina e frágil, tendo a certeza de que o único amor de que se pode ter garantia nesta vida, é o de entre uma mãe e uma filha.
Alguns dias depois, enquanto levava alguns dos seus pertences para o sótão, deparou-se com um pequeno móvel poeirento e que parecia mais velho que a própria casa. Ao baixar-se para abrir uma das gavetas, tropeçou e embateu numa das quinas do móvel, fazendo abrir um pequeno compartimento secreto. Isso não a surpreendeu pois aquele género de artimanhas eram muito vulgares na época, sendo uma forma muito prática de se guardarem jóias ou documentos valiosos. Porém aquele compartimento tinha apenas uma chave envolvida num pedaço de veludo e D. Íris soube imediatamente que se tratava da chave desaparecida daquele quarto que tanta curiosidade lhe causava. Enfiou-a no decote por entre as rendas do espartilho que a sufocavam mais do que nunca e desceu as escadas.
Nessa noite, esperou que Margarida adormecesse no seu quartinho branco e lavanda. Beijou-lhe a face e retirou-se para o seu quarto. O marido estava a ler, deitado na cama, com aquele seu novo ar frio e distante. Ela fingiu-se adormecer e assim que ele apagou a candeia e adormeceu, ela abriu os olhos na escuridão com a chave apertada entre as mãos, aguardando pacientemente que todos os empregados se deitassem.
Quando deixou de ouvir qualquer som e toda a casa se imobilizou de vida, ela levantou-se da cama e o mais silenciosamente possível, pegou numa vela e saiu percorrendo todo o percurso até ao misterioso quarto por puro instinto, pois apesar de a lua estar cheia, havia muita nuvem no céu e a escuridão era total. Chega á porta aos apalpões, com o coração a latejar tão forte no peito, que ela por momentos julgou que ia acordar toda a gente na casa só com o seu bater.
A chave entra imediatamente na fechadura e ao contrário do que ela previra, a fechadura abre sem o menor ruido, como se fosse manteiga. Uma vez lá dentro, acende a vela, e por entre o cheiro a mofo depara-se com cerca de uma dúzia de baús enormes. Com os nervos desfeitos e derrepente inundada de um medo aterrador, começa a abrir os baús, um por um. Lá dentro encontra roupas de criança... imensas roupas para todas as ocasiões e estações do ano. Dois dos baús estão cheios de brinquedos de menina e de menino, desde bonecas de porcelana de vestidos aos folhos a bolas e piões. Fica atónita, sem entender. Ela sabe que a anterior esposa do marido fugiu, jamais poderia ter levado todos os pertences dos filhos na fuga, mas ainda assim, sente-se atingida por uma onda de terror instintivo. Sem conseguir parar, continua a abrir baús, estes com finas roupas de senhora. Sente um nó na garganta ao verificar que um dos baús tem como conteúdo unicamente trajes de viagem. Num deles encontra uma caixa de madeira trabalhada cheia de jóias. Anéis de brilhantes, gargantilhas dignas de qualquer princesa das cortes mais abastadas, pregadeiras forradas a pedras preciosas e um não acabar de jóias de preço que ela nem de longe podia calcular. Nenhuma mulher no seu perfeito juízo fugiria de casa sem levar pertences tão valiosos.
Sente-se desfalecer e corre para fora da casa... precisando de ar puro que inspira vigorosamente enquanto corre sem destino por entre o jardim perfumado. Quase na mais completa escuridão, tropeça numa raiz de árvore. Fica ajoelhada no chão tentando perceber o que aqueles baús num quarto fechado podem querer dizer. Subitamente e como que por magia, uma nuvem deixa a lua cheia a descoberto, e ela na súbita claridade levanta os olhos. À sua frente estão três canteiros majestosos e meticulosamente cuidados. Um era de violetas, outro de jacintos e o terceiro de rosas. Ela naquele instante percebe tudo! Os olhos arregalam-se de horror e da sua garganta começam a sair gritos que lhe pareciam ser de outra pessoa. Na ala dos criados as janelas dos quartos começam a iluminar-se uma a uma e vultos começam a assomar ás janelas, olhando imóveis e sem expressão.
Ela grita cada vez mais e começa a correr em direcção á casa. Quer ir buscar a pequena Margarida e fugir para longe... para o mais longe que puder. Corre sempre aos tropeções no meio de todas aquelas flores. Sente-os a olhar para ela. Porque é que ninguém a ajuda??? Ela não entende.
A alguns metros da casa cai e bate com o queixo no chão que começa a sangrar violentamente. Ao levantar a cabeça e a única coisa que vê é o Dr. Afonso com um machado erguido e de olhos vazios e lábios cerrados.
No ano seguinte, ao lado dos canteiros de violetas, jacintos e rosas erguem-se outros dois, um de íris e outro de margaridas.

Entre Mundos



Todas as noites ela se deita à meia-noite. Nem um minuto antes... nem um minuto depois... Mergulha na doce calma acetinada dos lençóis e deixa-se adormecer placidamente.
Todas as noites ele espera pacientemente que ela adormeça. Quando ouve a sua respiração regular, de quem partiu para o mundo dos sonhos, entra no quarto, calçado de nuvem, e sem um som, aproxima-se da cama e senta-se ao seu lado. Contempla o rosto dela que quase sempre dorme a sorrir... e olhar aquele sorriso, fá-lo sorrir também.
Com as pontas dos dedos percorre ao de leve as suas faces e as madeixas soltas de cabelo que se espalhavam rebeldemente pela almofada.
Debruça-se sobre o seu rosto e sussurra-lhe doces palavras ao ouvido. Ela sorri ao ouvir essas palavras, que a ela lhe chegam em forma de sonho.
Ele levanta-se num impulso quase religioso e percorre todo o quarto... com gestos de quem já o fez mil vezes e de quem o vai fazer mil vezes mais.
Toca nas suas roupas penduradas no armário... abre cada uma das gavetas e acaricia as roupas dobradas. Dirige-se à cómoda... contempla os brincos favoritos dela, as pulseiras... os anéis... Pega no pequeno frasco de perfume lilás semi vazio. Sente o frio do vidro nas suas mãos e inspira um pouco daquela essência adocicada que o faz desejar beijá-la mais do que nunca...
Olha de relance para a cama, a respiração regular dela faz com que o peito levante os lençóis para cima e para baixo, quase imperceptivelmente.
A noite passa devagar, sem pressas, como se o próprio tempo tivesse adormecido também.
Como todas as noites ele permanece ao lado dela, tocando-lhe ocasionalmente na mão adormecida ou na face, percorrendo todo o ângulo e terminando na linha do pescoço. Deseja ardentemente que aquela noite não acabe nunca e que aquele momento permaneça para sempre congelado no tempo.
A madrugada, que aos olhos dele é algo de aterrador, acaba inevitavelmente por chegar...
Ele inclina-se resignado e encosta os seus lábios suavemente aos dela. "Até logo à noite", sussurra em jeito de despedida. Ela sorri e aconchega-se mais um pouco.
Quando o primeiro raio de sol penetra no quarto... já ele se foi embora... silencioso... calçado de nuvem.

E quando...



E quando a raiva nos tolda a visão... e tudo é sangue e desespero e angústia...
E quando o resto do mundo deixa de existir... e ficamos sós num quarto fechado sem janelas e sem ar... entregues à nossa insanidade...
E quando batemos de punhos cerrados numa parede... que não cede nunca, por mais que a esmurremos...
E quando caminhamos pelas ruas levitando... sustentados no ar pelo pelo nosso próprio ódio...
E quando tudo é escuridão e as palavras nos envenenam a alma e nos afogam a razão...
E quando...
 
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