domingo, 1 de março de 2009

Subjugação


Logo depois de casar, largou o emprego para se dedicar inteiramente á casa e ao marido. Vivia para lhe agradar, para o servir, fazendo tudo para se tornar indispensável.
Obcecada pela perfeição e por aquele amor, preparava cada refeição como se fosse um banquete, cada camisa que passava era tratada como uma escultura de arte, lavava, esfregava, perfumava, floria… A casa estava sempre num brio tal, que parecia que ninguém lá habitava.
O marido era incólume a toda esta dedicação e afecto. Olhava para tudo friamente, nunca satisfeito com nada e sem lhe dirigir em vez alguma uma simples palavra de apreço. Para ele as camisas tinham sempre as golas mal passadas, as calças tinham sempre os vincos tortos, as gavetas estavam sempre em desordem, a comida estava sempre salgada ou insonsa e os bolos ficavam sempre muito enqueijados ou então muito secos.
Ela encolhia-se perante a dureza dos seus comentários… e o seu coração foi mirrando ao mesmo tempo que os anos foram passando.
O quadragésimo aniversário do marido estava a chegar e ela empenhou-se em tornar a ocasião mais especial que nunca.
Comprou um lindo vestido de seda vermelho para a ocasião e passou duas horas no cabeleireiro a dar uma nova vida aos seus longos cabelos dourados.
Preparou o prato favorito dele, Cordeiro no Forno, medindo cada condimento á milésima de grama. Fez um bolo de quatro camadas com um talento tal, que parecia feito por um pasteleiro profissional. Pôs uma toalha branca bordada na mesa com um jarro de flores ao centro e castiçais com velas em cada canto. Com as economias de quase um ano, comprou um magnífico relógio para oferecer ao marido, que segundo as palavras do próprio relojoeiro, se travava de “uma maravilha da tecnologia”.
Tinha demorado todo o dia a preparar aquele jantar para que ficasse perfeito… está exausta mas feliz, contente com o resultado obtido.
Sente o marido chegar e olha-se mais uma vez ao espelho… gosta do que vê e apressa-se a ir ao seu encontro.
Olha-o com uma devoção de cachorrinho assim que ele entra na sala. “Parabéns amor!” e estica-se para lhe dar um beijo que ele aceita distraído ao mesmo tempo que pendura o casaco. Olha para ela, “Que roupa é essa? Sabes que o vermelho te faz mais gorda!”. Ela crava os olhos no chão, envergonhada. Talvez faça. Sim, é claro que o vermelho a faz mais gorda. Que tonta foi em ter escolhido um vestido daquela cor.
Ela entrega-lhe o embrulho com um olhar tímido mas ao mesmo tempo seguro e com a alegria imensa da certeza de que ele vai adorar o presente. Ele desembrulha-o desajeitadamente: “Ah, um relógio! Sabes que já tenho três. Não havia qualquer necessidade de me teres comprado outro.” Ela pede desculpa e sorri nervosamente, tentando disfarçar a desilusão.
“Vem jantar. Fiz o teu prato favorito! Tens fome?”, ele responde que nem por isso… lanchou tarde…
Senta-se á mesa algo entediado. “Com estas velas aqui não consigo ver a televisão como deve de ser. Tens cada ideia mais disparatada! Tira-as da mesa se faz favor” Ela tira. “Estas flores são muito perfumadas! Mas que chatice! Não vou conseguir comer com este cheiro! Tira-as daqui se faz favor”. Ela tira.
Olha de relance para o bolo de aniversário pousado em cima do balcão da cozinha. “Aquilo é cobertura de morango? Sabes que detesto morango!”. Ela engole em seco, afogando as lágrimas, “Eu raspo a cobertura então” diz com um esgar de dor disfarçado de sorriso. Não sabia que ele não gostava de morangos, aliás, podia jurar que já o tinha visto comê-los por diversas vezes. Os músculos retesam-se e o olhar fica sombrio.
Pousa a travessa de cordeiro na mesa, da qual emana um cheiro delicioso e serve-o. Ele leva uma garfada á boca: “Está salgado!”. Nesse momento algo se quebra dentro dela, como uma corda que é esticada ao limite… essa frase fica a ressoar-lhe dentro da cabeça… “está salgado… está salgado… “
Levanta-se, como que em estado de hipnose, abre a gaveta dos talheres e pega na faca de trinchar. “Olha para mim!”, ordena ao marido. Ele volta-se, surpreendido pelo tom autoritário da voz dela. Ela levanta a faca no ar e com uma precisão cirúrgica crava-a na jugular. O sangue jorra em repuxo e ela cai, ficando deitada de costas enquanto o seu sangue quente se espalha sobre os imaculados azulejos brancos.
O marido fica sentado á mesa, olhando-a em silêncio enquanto a vida da mulher se apaga. Não move um músculo, apenas observa placidamente.
Volta-se para a comida e leva mais uma garfada á boca. Surpreende-se. Está de facto uma delícia! Come avidamente e repete duas vezes. Levanta-se da mesa e dá uma passada larga por cima do corpo da mulher, tentando evitar a cada vez maior mancha de sangue e dirige-se ao bolo. Come uma fatia. Deliciado, come outra.
Vai até ao quarto para mudar de roupa. Não quer receber a polícia com as roupas no típico desalinho do fim de um dia de trabalho. De todas as calças e camisas alinhadas na perfeição, escolhe duas peças, ”Sim sim… impecável… hm hm”
Volta para a cozinha e olha mais uma vez de relance para o corpo sem vida da mulher naquele charco de sangue.
Pega no telefone e disca um número, “Estou, D. Lurdes? Ouça, não vai acreditar no que a sua filha acabou de fazer…”

2 comentários:

Brown Eyes disse...

Esta é, infelizmente, a descrição perfeita da vida de muitas mulheres. Espero que o fim delas seja diferente. Depois de viverem anos a fio anuladas espero que dêem o “Grito de Ipiranga” e não que cortem a jugular.

johnny disse...

Muito bom.