domingo, 1 de março de 2009

Beleza


Nasceu durante um eclipse lunar. No preciso momento em que a noite ficou mais escura que nunca, ela sai de dentro de sua mãe.
Dão-lhe a graça de Constança. Desde a mais tenra idade que se adivinhava que Constança ia ser possuidora de uma beleza extraordinária e por volta dos doze anos, esse facto tornou-se inegável. Era a mais nova de três irmãs e sem dúvida a mais bela. As suas irmãs no entanto não lhe tinham qualquer inveja, antes pelo contrário e ficavam consternadas na sua presença, como se aquela beleza as desconcertasse.
Os próprios pais não sabiam porquê, mas a beleza da filha em nada os aprazia. Muitas vezes surpreendiam-se a si próprios a olhá-la como se fosse possuidora de uma qualquer malformação. Envergonhavam-se de tais sentimentos, mas não conseguiam evitá-los.
O próprio padre da paróquia, durante um dos sumptuosos almoços de domingo que a família costumava dar, observou “Uma beleza assim é uma maldição!", o pai de Constança é atravessado por um calafrio e a mãe benze-se, desconcertada.
Constança era inteligente e perspicaz, destacava-se das irmãs não só pela beleza mas também pelos imensos talentos que possuía. Tocava piano e harpa de forma excepcional, falava fluentemente três línguas, sabia bordar briosamente, cozinhava pratos deliciosos e pintava quadros a óleo de paisagens magníficas e improváveis que rebuscava na sua imaginação através de descrições que lia em livros.
Era delicada de maneiras e o seu carácter era firme mas dócil.
Normalmente, pessoas assim tão belas e talentosas estão rodeadas por uma aura susceptível de atrair os outros. Estranhamente, isso não sucedia com Constança. Não conseguia alcançar os outros, grande parte devido ao facto de outros não quererem ser alcançados por ela. Vivia sozinha pelos cantos, mendigando atenção e carinho, porém, nem o cãozinho de companhia da família queria nada com ela.
Corriam pela cidade rumores de que ela levitava quando queria. Havia quem dissesse que ela, por debaixo das suas roupas rendadas tinha a pele translúcida, que caminhava nua e em transe pelos bosques nas noites de lua cheia e que não comia nunca, pois o seu corpo não necessitava de nenhum alimento terreno.
Desta forma, Constança sentia-se só, apesar de viver rodeada por muita gente, angustiada pelo desejo de calor humano, de um toque, ou de um sorriso que não fosse de misericórdia mas sim de afecto. Ela era de facto, aprisionada na sua beleza, o mais infeliz dos seres.
Quando chegou a idade de casar, ela alegrou-se. Não importava com quem a casavam, ela só queria alguém que a quisesse a ela também. Mas todos os supostos pretendentes que a conheciam durante os bailes e festas que os pais davam para o efeito, ficavam abismados com a sua beleza e acabavam por desviar os olhos como se queimasse. Saíam sempre apressados, balbuciantes, envergonhados.
Constança sente o seu peito a esmaga-la cada vez mais de dia para dia. Não aguenta a solidão que parecia ser água que lhe entra pela boca e pelo nariz, afogando-a, matando-a, levando-a para um fundo escuro e frio com uma âncora atada à cintura.
Um dia o mais absoluto inesperado aconteceu. Ao sair da missa de Domingo de braço dado com o pai, esbarra num rapaz que nunca tinha visto antes. Vinha a comer uma maçã distraído e não tinha reparado nela. Ela olha-o com um ar inquiridor, mas ele apenas sorri, com o sorriso mais aberto e franco que ela já tinha visto na vida. Ele leva a mão ao bolso e puxa de outra maçã: “Quer uma?”, pergunta ele com um ar atrevido. Constança sente um calor subir-lhe o corpo e as suas faces incendeiam-se como duas tochas. Estava apaixonada.
Por qualquer motivo que ela não entendia, aquele rapaz não parecia perturbar-se com a sua beleza. Não a evitou, nem fugiu… pela primeira vez, Constança sentia-se uma rapariga normal.
O pai, abismado e com o coração cheio de esperança, tratou de saber tudo a respeito do rapaz na expectativa de casar finalmente a filha.
Descobriu assim que o rapaz era um simples pastor que se tinha mudado para uma das aldeias dos arredores. Não se deixou melindrar pelas suas humildes origens e tratou de fazer tudo ao seu alcance para facilitar o namoro.
Constança e o pastor começaram a encontrar-se religiosamente duas vezes por semana. Ela andava maravilhada, embriagada pelo carinho e atenção daquele rapaz. A sua maneira de ser, desprendida e pura arrebataram-na por completo. Ele por seu lado, amava-a docilmente pela sua inteligência e moral, apesar de não a achar muito bonita.
O casamento é marcado para Dezembro desse ano. Os noivos rejubilam. E quando Constança afirma que pretende viver numa casa nos bosques para que possa estar sempre perto do marido, a sua família e toda a cidade rejubilam também, felizes por se livrarem daquela anormalidade em forma de beleza.
Dois dias antes do casamento, enquanto guardava as ovelhas, o pastor cai de uma pequena ravina, partindo o pescoço num pequeno som de galho a estalar.
A notícia chega a Constança algumas horas mais tarde. Fica atordoada, sem acreditar. Grita, amaldiçoa, faz os punhos em sangue de tanto bater com eles na parede. Nessa noite, deita-se com o olhar vazio e com um buraco sem fundo no sítio do coração.
Na manhã seguinte não acorda. Encontram-na deitada, com o seu vestido de noiva, de sorriso etéreo e pele branca como a cal. Quem entrava no quarto era obrigado a desviar o olhar. A beleza de Constança tinha adquirido novos contornos, tinha-se agudizado tornando-se quase agressiva e obscena para quem olhava.
A cidade respirou de alívio assim que a primeira pazada de terra é atirada sobre o caixão… porque uma beleza assim era uma aberração da natureza… porque uma beleza assim desafiava o equilíbrio do universo.

Reciclado para Fábrica de Letras a 1 Janeiro de 2010 - "Beleza"

14 comentários:

Brown Eyes disse...

Ginger tu tens-me fascinada, tens uma imaginação clara e distinta. Uma mulher muito observadora que consegue descrever atitudes que passam a muitos despercebidas. Consegues descrever as tuas personagens tão bem que as vemos reflectidas, tal como os sentimentos, qualidades e defeitos. Do mundo tens uma noção exacta assim como sabes que a beleza não torna a vida de alguém mais facilitada e mais feliz, como à primeira vista pensaríamos. Nem sempre o belo é amado mas o belo ama e sente falta de amor. Ginger essa cabecinha tem uma capacidade enorme e deve ser aproveitada porque, algo assim, é invulgar e as coisas invulgares têm que estar num pódio. Um pescoço não é suficiente para as sustentar.

Teresa disse...

Gingerbread
Eu confesso que fiquei cheia de pena da Constança. A beleza não é um valor positivo, em si mesma, mas também não pode ser um valor tão negativo. Não podias deixá-la com o seu pastorzinho?
Bjs

Gemini disse...

Olá Ginger!

Muito bom esse teu ângulo de visão e excelente a forma como no-lo dás a ver! No entanto estou em crer que também verás a beleza de outros ângulos. ;))

E obrigado, por me mostrares que o grupo a que provavelmente pertenço, o dos "feios" (nesse conceito dúbio que é a beleza), ser um grupo que, ao que te li, poderá levar uma vantagem em relação aos "belos"; a vida parece ser-lhes mais "acessível", nesta parábula! (Devo andar distraído, ao não tirar partido dessa vantagem...)

Um beijinho.

Gingerbread Girl disse...

Muito obrigada Brown, apesar de já teres comentado há três meses... é que eu não tenho por hábito responder aos comentários aqui no Sombras.
És muito generosa amiga, demais até. Bjinhos*

Teresa, a beleza da Constança estava envolta numa aura surrealista. Tão surrealista que as pessoas ao vez de a invejarem, apenas sentiam pena dela.
Quanto ao pastorzinho... as histórias infelizes sempre me marcaram mais. Vai daí... :p

Gemini, a beleza física é de facto um ângulo muito limitativo para este tema. A própria beleza física é muito limitativa e sobrevalorizada. A importância que a presente sociedade lhe dá é simplesmente ridícula.
E a beleza é tão subjectiva que tu não podes dizer que pertences aos "feios". :p

meldevespas disse...

Este é um dos teus contos que eu pessoalmente acho mais "Ginger". É muito belo, tal como a Constança, cheio de rendilhados soberbos que nos deixam com água na boca.
Agora....outra coisinha......reciclar...hummmm....tá bem......
(mas tens até ao fim do mês para mais um, ok, novo, ok?)
Pronto...
Beijos
Grandes

johnny disse...

Afinal, já escrevias bem antes dos últimos meses do ano de 2009!

Chica disse...

Nossa, foste fundo na inspiraçãpo.maravilha e coitada da Constanza,rsrsrs se deu mal com essa beleza...Ótima participação!beijos,chica

Lala disse...

Opá!!! Ginger, mais uma vez me deixas estarrecida! Li, reli e saí do teu blog para voltar a entrar e ler como se fosse a primeira vez! A Brown diz e é bem verdade!! Ler o que escreves é como se estivéssemos a ver tudo...
A beleza de um texto que nos fala de uma beleza extraordinária.

Está fantástico. Não há dúvida que tu tens uma imaginação soberba!!

Parabéns!

Catsone disse...

Gostei muito deste teu conto. Achei-o algo triste e... arrepiante ;) Como pode uma beleza ser tão bela que assuste? Muito boa a ideia.
*

Brown Eyes disse...

Ginger li segunda vez e voltei a delirar com a história. Que saudades tinha já das tuas histórias. Reciclar está óptimo mas espero outro conto apesar de saber a vida que tens. Estou a tornar-me egoísta não é? Pois pois, quem não se torna quando te lê? QUEREMOS MAIS E MAIS E MAIS...
Beijinhos Linda

Carlos Albuquerque disse...

O belo da Beleza por vezes perturba, assusta e inquieta os que, por bonitos que sejam à vista, dentro deles só tenham o vazio do nada.
Belo conto a enriquecer a nossa Fábrica.
BJS

Eva Gonçalves disse...

Adorei o teu conto. Está mesmo giro e o desfecho também. The beauty doesn't always get the prince in the end...realmente, há quem não suporte a beleza/felicidade/diferença alheia e em nome desse suposto equilíbrio do Universo que deve ser mantido, olha só o que já se fez.... Beijinho

MZ disse...

Ninguém escolhe nascer bonito ou feio, com qualidades ou sem elas. Simplesmente se nasce.
Cada ser carrega a sua forma física e com ela, tenta ser feliz...
A Constança também merecia ser feliz!


Admiro a sua capacidade de escrever pequenos contos.
Adorei o "Velho e o Chopin" e agora este.

Ainda bem que o reciclou, eu gostei muito!

:)

Ceres disse...

Muito bom!
Excelente participação :))