domingo, 1 de março de 2009


Vestido de Cetim Branco e Meia de Seda


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No salão de chá do hotel ouve-se o som de um carro a chegar. Os olhares voltam-se. Ver um carro é ainda tão raro como pérolas negras. Olham abismados para aquela máquina estranha e barulhenta que só poderia ter sido inventada por um cérebro demente com um pacto com o demo.
O carro faz uma travagem e pára bruscamente ao lado de várias carruagens puxadas a cavalo.
Uma porta abre-se e uma perna de senhora envolta em meia de seda espreita para fora... aos olhares curiosos juntam-se sons incrédulos. Era estranho ver um carro... mas ainda mais estranho era ver uma mulher a conduzir um. Os sons incrédulos ganham nuances de reprovação.
Dirige-se à recepção e pede um quarto. Pergunta onde pode tomar uma bebida. Caminha como uma pantera... elegante, sinuosa, altiva de cabelo curto orgulhoso.
É impossível deixar de reparar nela. As senhoras e meninas sentadas nos banquinhos forrados a veludo lavanda olham indignadas e surpresas para a forasteira que lhes interrompeu o chá, os biscoitos de manteiga e a coscuvilhice de cidade pequena. Basta olhar de relance para o seu vestido de cetim pérola para se perceber que não está a usar espartilho... possivelmente nem está a usar nada, pelo menos é isso que acusam as duas minúsculas protuberâncias na zona dos seios.
Senta-se ao balcão e tira uma cigarrilha da malinha. Novamente sons incrédulos a ganhar nuances de reprovação...
Uma das senhoras sussurra em voz baixa que aquela mulher deve ser uma revolucionária daquelas que se julgam iguais aos homens em tudo. Vestia-se inapropriadamente para aquela hora da tarde e mesmo da noite, pois aquilo não eram trages de mulher decente. Talvez fosse mesmo uma sufragista! Uma rebelde! Como tal, não lhes merecia respeito nem qualquer tipo de atenção. As outras concordam com delicados acenos de cabeça mecânicos e continuam a sorver as infusões de cidreira e camomila.
Ele observa-a de uma ponta do salão. Analisa-a e calcula a probabilidades. Nunca tinha tido uma mulher assim, mas também, nunca tinha visto uma mulher assim. Volta a olhar para uma donzela morena e de ar pudico, escondida atrás de um leque de renda espanhola, que esteve a admirar por longos minutos e decide que esta estranha é uma desafio muito maior, mas também muito mais recompensador. Por mais senhora de si que ela pudesse ser, ainda nenhuma mulher lhe tinha resistido aos encantos. Esta não seria com certeza a primeira.
Dirige-se aquela visão de cetim branco enquanto afaga o bigode e passa um pequeno pente pelo cabelo untado de banha... a experiência é tal que o pequeno pente desaparece no bolso do casaco baratucho tão repentinamente como apareceu.
- A senhora é extremamente bonita, sabia?
Olha-a com um olhar sedutor e confiante... simpático, afável ao mesmo tempo que é apanhado com um choque por aqueles olhos azuis gelo... tão cristalinos que incomodavam.
- Sou? Quão bonita? - lança-lhe um olhar genuinamente inquiridor, falando com uma voz de veludo enquanto exala fumo de cigarrilha por entre uns lábios escarlate.
- Desculpe? ... pergunta ele confuso e meio atrapalhado.
- Quão bonita?
- Hmm... não sei. Muito.
Engole em seco e arrepende-se de não ter escolhido antes a rapariga morena com ares de noviça.
- Pois, não sabe. - sorri ironicamente.
Faz-se silêncio enquanto ela inala mais uma vez.
Vira-se para ele e pergunta se ele é casado. Ele pretende mentir, dizer que não... mas algo nos olhos dela, de um azul de gelo o obrigam a dizer a verdade.
- Sou. E a senhora... é casada?
- Tem dias.
Ela sorri de uma forma afectada, impossível de decifrar.
- Já ouviu falar num senhor chamado Sigmund Freud? - cruza e descruza as pernas, fazendo a com que as meias de seda soltassem faíscas prateadas.
- Não. - Atrapalha-se envergonhado.
- É um neurologista que está a causar bastante sensação pelas suas ideias a respeito do funcionamento da psique humana... sabia?
Ele não sabia. Ele mal conseguia escrever o seu próprio nome... não sabia nada de neurologistas, nem sequer o que era uma psique humana.
- Ele afirma que nós não temos um controle total sobre nossa mente... acredita nisto?
Está desconfortável, o colarinho aperta-o. Sufoca. O caçador torna-se a presa.
- Eu... eu não sei. Acho que cada pessoa faz o que quer... hm...
- Acha mesmo? - inala.
- Hm... sim. Acho que sim. Só faço o que quero, sim.
- Costuma levar muitas mulheres debaixo dos lençóis com este género de abordagens?- diz ela com uma mudança de assunto tão brusca que o deixa atordoado.
Ele encolhe-se... quer responder que é um engano, que ela o está a interpretar mal... Mas novamente aqueles olhos azul gelo... profundos, inquisidores.
- Sim.
- Espera fazer o mesmo comigo? - olhar azul gelo.
Ele fica rubro de vergonha. Engole em seco. Não responde e crava os olhos no chão como se desejasse que um buraco se abrisse e o engolisse de um trago.
- Hm... sim. - a verdade sai-lhe como um vómito incontrolável... como se aquelas palavras estivessem a sair da boca de outra pessoa... quer ir embora dali mas os seus pés não se movem, como se alguém os tivesse pregado ao chão.
- Costumam pagar-lhe? - lança-lhe uma nuvem de fumo para a cara... lentamente, semicerrando os olhos.
- Hm... sim. Sim. Olhe, foi um prazer conhecê-la, mas tenho um compromisso... tenho de ir. - sentia-se cada vez mais um animal encurraldo ... só queria sair dali... fugir para longe.
Ela ignora a falsa desculpa que ele cospe e continua.
- E elas sabem sempre que lhe pagam... ou ás vezes têm uma surpresa? - Divertia-se perante o embaraço e a impotência daquele homem.
- Ás vezes têm uma surpresa. - admite envergonhado.
- Sentia aquela mulher a ler-lhe a alma e a mente... a percorrer todos os seus pensamentos, a tomar conhecimento de todos os seus segredinhos nojentos. A cabeça começa a latejar-lhe mas ele já desistiu de querer ir embora, como se fosse qual fosse o esforço que tentasse fazer para sair dali, ela jamais o permitira. Abandonou-se à vontade daquela estranha de pele branca e olhos azul gelo.
- Eu não costumo fazer caridade, sabe?
- Desculpe? - não entende.
- Caridade... não tenho por hábito fazer caridade. - repete ela com um sorriso tépido enquanto pega nas chaves do quarto e lhe pousa a mão delicadamente numa perna. Está gelada e ele arrepia-se assustado.
Ela levanta-se, com o vestido de cetim pérola, que, apesar de solto lhe marcava todas as formas do corpo, descaradamente, obscenamente...
Começa a afastar-se com o seu andar felino e as chaves do quarto a oscilar desoladamente enfiadas no dedo indicador.
- Siga-me.
E ele seguiu-a.

2 comentários:

johnny disse...

este não gosto muito... nunca gostei de feministas :)

Patife disse...

Transportaste-me para outros tempos... E agradeço-te por isso.